💸O Brasil que dá certo: por que ainda não conseguimos multiplicá-lo?
De Kanitz à Embraer, Petrobras, WEG, Embrapa, Coamo, HAVAN e Boticário: talvez o desenvolvimento brasileiro esteja menos na escolha entre Estado ou mercado e mais na capacidade de fazê-los funcionar juntos
✍️ Autor: Prof.
Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia,
desenvolvimento regional e sociedade
Há alguns anos li O Brasil que Dá Certo,
de Stephen Kanitz. O título sempre me pareceu provocativo.
Estamos acostumados a discutir o Brasil que não funciona.
A burocracia, os juros, os impostos, a desigualdade, a baixa produtividade, os
problemas de infraestrutura, as crises políticas e nossa histórica dificuldade
de transformar crescimento econômico em desenvolvimento.
Tudo isso existe e precisa ser discutido.
Mas há outra pergunta que fazemos muito menos:
E o Brasil que dá certo?
Porque ele também existe.
Está numa aeronave brasileira que atravessa continentes.
Está milhares de metros abaixo da superfície do Atlântico, onde desenvolvemos
tecnologia para retirar petróleo em águas que um dia pareciam inalcançáveis.
Está num motor elétrico produzido por uma empresa catarinense e vendido do
outro lado do mundo. Está na agricultura tropical, numa cooperativa paranaense,
nos cosméticos que saíram de Curitiba para dezenas de países e até numa
cervejaria brasileira que participou da formação da maior companhia cervejeira
do planeta.
Talvez, mais de três décadas depois, possamos atualizar a
provocação de Kanitz.
Não para provar que o Brasil "deu certo". Seria
exagero.
Mas para perguntar algo economicamente mais interessante:
Por que algumas coisas dão extraordinariamente certo no
Brasil e temos tanta dificuldade para reproduzir essas experiências no restante
da economia?
BRASIL - Antes de escolher um lado, vamos olhar os
resultados
Já escrevi neste espaço sobre capitalismo, socialismo,
distribuição de renda e a velha teoria do bolo.
Continuo achando pouco produtiva a ideia de que precisamos
escolher uma prateleira ideológica e retirar dela todas as respostas.
Economia e política sempre estiveram relacionadas. Valores
culturais e religiosos também influenciam nossas concepções de trabalho,
propriedade, riqueza, solidariedade e justiça.
Mas uma coisa é política. Outra é transformar Economia em
torcida político-partidária.
Por isso proponho neste texto um exercício diferente.
Vamos colocar lado a lado experiências que, à primeira
vista, parecem pertencer a mundos completamente diferentes.
- Uma
estatal.
- Uma
empresa que nasceu estatal e foi privatizada.
- Uma
empresa privada familiar.
- Uma
multinacional.
- Uma
cooperativa.
- Uma
instituição pública de pesquisa.
- Um
grande varejista.
E vamos perguntar: o que podemos aprender com aquilo
que funcionou?
✈️ Embraer: quando Estado,
ciência e mercado cabem no mesmo avião
Poucos casos representam tão bem essa complexidade quanto
a Embraer.
Sua história dificilmente cabe no discurso simplista de que
o Estado sempre atrapalha ou, no extremo oposto, de que somente o Estado
consegue promover desenvolvimento.
A empresa nasceu em 1969 dentro de um projeto brasileiro de
construção de capacidade aeronáutica que envolveu Estado, formação de
engenheiros, pesquisa e instituições como ITA e CTA.
Décadas depois, foi privatizada. E tornou-se uma das grandes
empresas aeroespaciais do mundo.
Agora chegamos a um capítulo ainda mais interessante dessa
história: o programa Gripen.
O Brasil não simplesmente comprou 36 aviões de caça da sueca
Saab. O programa incorporou transferência de tecnologia e participação
da indústria brasileira no desenvolvimento.
Mais de 350 especialistas brasileiros participaram
de treinamentos, somando mais de 600 mil horas de capacitação em 62
projetos. Empresas brasileiras passaram inclusive a integrar a cadeia
global de fornecimento do Gripen.
Em junho de 2026, a Saab apresentou o primeiro Gripen
F, versão biposto da aeronave. E existe um detalhe que considero
especialmente importante: o Brasil foi cliente lançador e participou
ativamente do codesenvolvimento dessa versão.
Isso muda tudo.
Comprar tecnologia é uma coisa. Aprender a utilizá-la é
outra. Participar de seu desenvolvimento é outra ainda.
Desenvolvimento não é apenas comprar tecnologia. É
comprar, aprender, dominar, produzir e, quando possível, tornar-se capaz de
vender essa tecnologia para o mundo.
🛢️ Petrobras: havia
petróleo, mas faltava saber chegar até ele
A Petrobras nos oferece outra aula.
Quando grandes reservas brasileiras foram encontradas em
águas cada vez mais profundas, possuir petróleo no subsolo não significava
automaticamente possuir riqueza economicamente explorável.
Faltava tecnologia.
Nos anos 1980, não havia tecnologia comprovada no mundo para
produzir, nas condições necessárias, em alguns dos grandes campos brasileiros
próximos a mil metros de profundidade.
O Brasil poderia simplesmente concluir que aquilo era uma
limitação. Fez outra escolha.
A Petrobras desenvolveu parcerias com fornecedores,
universidades e centros de pesquisa e criou, em 1986, o Procap,
programa destinado à capacitação tecnológica em águas profundas. Vieram depois
Procap 2000, Procap 3000 e novas gerações de tecnologias.
Os resultados ultrapassaram nossas fronteiras.
A Petrobras recebeu sucessivos reconhecimentos da Offshore
Technology Conference por soluções relacionadas a Marlim, Roncador,
pré-sal, Búzios e renovação da Bacia de Campos. Em 2025 recebeu seu sexto
prêmio internacional da OTC, pelo projeto Búzios 7.
O CENPES possui hoje mais de 115
laboratórios de P&D e mantém um ecossistema que envolve mais
de 900 empresas e nove mil pesquisadores.
Independentemente da opinião que cada brasileiro tenha sobre
petróleo, pré-sal, política energética ou sobre os diferentes governos que
administraram a companhia, há um fato econômico difícil de ignorar:
o Brasil construiu conhecimento tecnológico de fronteira.
E conhecimento também é patrimônio.
⚙️ WEG: uma pequena oficina que
encontrou o mundo
Agora mudemos completamente de modelo.
Saímos de uma estatal para uma empresa privada fundada
em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, em 1961.
A WEG tornou-se uma companhia global de
equipamentos eletroeletrônicos.
Em 2025, registrou receita líquida de R$ 40,8
bilhões. Mais interessante para nossa discussão: 60% vieram dos
mercados externos.
A empresa possui unidades industriais em 18 países,
presença comercial em mais de 135 países e mais de 49
mil trabalhadores, entre eles mais de 5.500 engenheiros.
Esse último número me chama particularmente a atenção.
Porque podemos olhar uma empresa pelo faturamento. Eu
prefiro também olhar para aquilo que ela sabe fazer.
Motores elétricos, automação, geração e transmissão de
energia, digitalização, eficiência energética e mobilidade elétrica.
A WEG mostra que uma empresa brasileira pode nascer longe
dos maiores centros mundiais de tecnologia, acumular conhecimento durante
décadas e competir globalmente em bens de capital.
Aqui o motor talvez seja elétrico. Mas o verdadeiro
combustível chama-se conhecimento.
🌱 Embrapa: antes da
potência agrícola existiu ciência
Outro caso desmonta uma falsa oposição entre Estado e
mercado.
O agronegócio brasileiro é essencialmente privado.
Mas parte importante das condições tecnológicas que permitiram seu
extraordinário desenvolvimento veio de investimento público em ciência.
A Embrapa foi criada em 1973.
Logo no início houve investimento deliberado em capital
humano. Em 1974, 317 pesquisadores estavam
realizando mestrado ou doutorado, parte deles no exterior. Ao mesmo tempo,
avançava o conhecimento sobre os solos brasileiros e sobre a produção agrícola
adaptada aos trópicos.
O Cerrado, durante muito tempo considerado pouco
adequado à agricultura intensiva, transformou-se.
A própria história da agricultura brasileira mostra a
combinação: pesquisa pública, extensão, crédito, produtores assumindo
riscos, empreendedorismo e organizações das cadeias produtivas.
Quem produziu esse resultado? O Estado? O mercado? Os
produtores? A ciência?
A resposta mais interessante talvez seja: todos
eles.
🌾 Coamo: existe ainda uma
terceira possibilidade
Nascida em Campo Mourão, no Paraná, a Coamo tornou-se a
maior cooperativa agroindustrial da América Latina — e aparece entre as 25
maiores do mundo em ranking que considera a relevância econômica relativa de
cada cooperativa.
E não precisamos limitar nossa discussão à velha divisão
entre estatal e empresa privada.
Existe o cooperativismo.
A Coamo mostra outra forma de organização
econômica: produtores são simultaneamente participantes de uma estrutura
empresarial que ganhou escala em armazenamento, processamento, comercialização
e industrialização.
Isso introduz uma terceira dimensão à nossa
discussão.
Entre o Estado proprietário e o acionista privado existe
também a propriedade cooperativa.
E isso importa particularmente no desenvolvimento regional.
Uma cooperativa não apenas comercializa uma safra. Ela
pode organizar produtores, disseminar conhecimento, ampliar escala,
facilitar acesso a mercados e permitir agregação de valor.
É outra árvore na nossa floresta. E nasceu de uma
semente diferente.
💄 Boticário: de Curitiba
para o mundo
Há ainda um caso pelo qual nós, paranaenses, podemos ter
especial interesse.
O Boticário nasceu em Curitiba em
1977.
Em 2025, o Grupo Boticário alcançou R$
38,1 bilhões em vendas ao consumidor, possui mais de 20 mil
colaboradores diretos e presença comercial em mais de 40
países.
Mas há um dado que considero ainda mais revelador.
Em 2025, aproximadamente 27% das vendas
ao consumidor vieram de produtos lançados havia menos de um ano.
Isso significa inovação permanente.
Cosmético pode parecer muito distante de avião, petróleo ou
motor elétrico. Economicamente, porém, existe algo em comum: conhecimento.
No avião ele aparece na engenharia aeronáutica. No petróleo,
na geologia e engenharia offshore. No motor, na engenharia elétrica. No
cosmético, aparece em química, biotecnologia, design, dados, marketing
e conhecimento do consumidor.
Agregar valor é transformar conhecimento em algo pelo
qual alguém está disposto a pagar.
🍺 Ambev: quando uma
empresa brasileira participa da construção de um gigante global
A Ambev oferece outro tipo de aprendizado.
A combinação de Brahma e Antarctica no
final dos anos 1990 deu origem à Ambev. Em 2004, a combinação com a Interbrew criou
a InBev. Em 2008, a união com a Anheuser-Busch originou
a atual AB InBev.
Hoje a Ambev atua diretamente em dez países das
Américas, e Brahma e Skol permanecem entre as dez cervejas
mais consumidas do mundo, segundo informações da companhia.
Aqui a inovação não está necessariamente numa tecnologia tão
visível quanto um caça ou uma plataforma offshore.
Está também em gestão, produtividade, logística,
marcas, distribuição, escala e capacidade de internacionalização.
E isso também é tecnologia organizacional.
🛒 E por que não colocar a
Havan nessa conversa?
Colocaria.
Justamente porque ela quebra novamente o padrão.
Luciano Hang possui posicionamentos políticos
públicos conhecidos. Stephen Kanitz, que inspira nossa discussão,
também é associado a uma tradição de pensamento liberal.
Isso não precisa ser escondido.
Da mesma maneira que não precisamos transformar Petrobras,
Embrapa ou Embraer em símbolos de outra posição política.
O objetivo aqui não é votar em nenhuma dessas
organizações. É entender Economia.
A Havan não precisa desenvolver tecnologia aeronáutica ou
explorar petróleo a três mil metros para constituir um caso empresarial
interessante.
Seu aprendizado está em outro lugar: varejo,
logística, expansão territorial, padronização, gestão, escala e construção de
marca.
Podemos concordar ou discordar de seus proprietários. Mas
análise econômica exige separar duas perguntas:
"Eu concordo com essa pessoa?"
e
"Existe algo que posso aprender economicamente com
aquilo que ela construiu?"
São perguntas diferentes.
📊 Afinal, qual é o Brasil
que dá certo?
Se colocarmos nossas experiências lado a lado, aparece uma
fotografia bastante curiosa.
|
Experiência |
Modelo |
Competência
construída |
|
Petrobras |
Estatal de capital
aberto |
P&D, petróleo em
águas profundas e ultraprofundas |
|
Embraer |
Nasceu estatal, hoje privada |
Aeronáutica, engenharia,
exportação e transferência tecnológica |
|
Embrapa |
Empresa pública |
Ciência aplicada à
agricultura tropical |
|
WEG |
Privada |
Engenharia, bens de capital,
inovação e internacionalização |
|
Grupo Boticário |
Privada |
P&D, marca,
franquias, tecnologia e internacionalização |
|
Ambev |
Privada |
Gestão, escala, marcas e
internacionalização |
|
Coamo |
Cooperativa |
Escala, agroindústria,
organização produtiva e desenvolvimento regional |
|
Havan |
Privada |
Varejo, logística, escala e
expansão territorial |
São organizações muito diferentes.
Algumas nasceram de decisões estatais. Outras nasceram na
iniciativa privada. Uma pertence aos cooperados. Algumas produzem tecnologia de
fronteira. Outras são extraordinariamente competentes em gestão, logística ou
construção de marcas.
Então talvez a primeira conclusão seja justamente esta:
não existe um único Brasil que dá certo. Existem vários.
📊 Quadro Comparativo de
Dados Econômicos (2025)
|
Empresa |
Modelo |
Receita Líquida (R$) |
Lucro Líquido / Resultado (R$) |
Destaque Principal |
|
Petrobras |
Estatal de capital aberto |
R$ 510 bi (aprox.) |
R$ 110,1 bilhões |
P&D e produção em águas ultraprofundas |
|
Embraer |
Privada
(ex-estatal) |
R$
41,88 bilhões |
R$
1,368 bilhão |
Aeronáutica
e transferência de tecnologia (Gripen) |
|
WEG |
Privada |
R$ 40,8 bilhões |
R$ 6,38 bilhões |
Engenharia e internacionalização (60% da receita externa) |
|
Grupo Boticário |
Privada |
R$
38,1 bilhões (GMV) |
Não
divulgado |
Inovação
permanente (27% de produtos novos) |
|
Coamo |
Cooperativa |
R$ 28,7 bilhões |
R$ 2,019 bilhões |
Maior cooperativa agroindustrial da América Latina |
|
Ambev |
Privada |
R$
88,24 bilhões |
R$
15,988 bilhões |
Gestão,
escala e marcas globais |
|
Havan |
Privada |
R$ 13,7 bilhões |
R$ 3,45 bilhões |
Varejo, logística e expansão territorial |
|
Embrapa |
Empresa
pública |
R$
4,6 bi (Orçamento) |
R$ 12,47 por R$ 1 investido (Retorno Social) |
Ciência
aplicada à agricultura tropical |
Observações importantes para o quadro:
- Receita
da Petrobras: A Petrobras não teve sua receita líquida total de
2025 nos resultados da busca. O valor de R$ 510 bilhões é uma estimativa
baseada em seu histórico de faturamento, então o ideal é usar a expressão
"aprox." ou focar no dado de lucro, que é confirmado.
- Retorno
Social da Embrapa: O
valor do Balanço Social não é lucro contábil privado, mas o retorno econômico
gerado para a sociedade. Para cada R$ 1,00 aplicado pelo orçamento público na
Embrapa, a instituição devolve aproximadamente R$ 12,47 em benefícios
econômicos, sociais e ambientais para o país.
- Grupo
Boticário: O dado de R$ 38,1 bilhões é o GMV (Gross
Merchandise Volume) ou "vendas ao consumidor", que é a
métrica de desempenho principal para o setor de varejo . O lucro
líquido não foi detalhado nos resultados.
⚖️ Talvez o nome disso seja
economia mista
Capitalismo e socialismo costumam aparecer no debate
cotidiano como duas caixas fechadas.
A realidade é muito mais interessante.
As economias modernas combinam mercado e Estado em
diferentes proporções.
- Empresas
privadas produzem, investem, competem, inovam e assumem riscos.
- O
Estado estabelece instituições, financia educação e ciência, constrói
infraestrutura, regula mercados e, em determinados setores, também investe
ou produz.
- Cooperativas
criam outra forma de organização.
- Universidades
produzem conhecimento.
- Empreendedores
transformam conhecimento em negócios.
- Trabalhadores
acumulam competências.
- Capital
financeiro permite transformar projetos em investimentos.
Isso é uma economia mista.
O debate sério não deveria ser simplesmente decidir se
queremos "mais Estado" ou "mais mercado".
A pergunta deveria ser muito mais difícil:
em que áreas, de que maneira e sob quais regras cada um
deles produz melhores resultados?
🧬 E aqui reencontro a
Triple Helix
Depois de estudar durante anos transferência de conhecimento
e tecnologia em parques tecnológicos, tenho dificuldade em olhar para esses
casos isoladamente.
A inovação raramente nasce de um único ator.
- Na Embraer encontramos
empresa, Estado, formação científica e tecnológica e mercado
internacional.
- Na Petrobras aparecem
empresa estatal, CENPES, universidades, fornecedores e centros de
pesquisa.
- Na agricultura encontramos
Embrapa, universidades, cooperativas, produtores, empresas e políticas
públicas.
- Na indústria encontramos
empresas como a WEG dialogando com conhecimento, engenharia, fornecedores
e mercados globais.
É exatamente a lógica da Triple Helix:
universidade, empresa e governo não precisam ocupar mundos separados.
O desenvolvimento aparece muitas vezes justamente nas interfaces entre
eles.
E talvez aí esteja uma pista importante para atualizar
Kanitz.
🌳 Temos excelentes
árvores. Por que ainda não temos a floresta?
Essa é, para mim, a pergunta central.
Se o Brasil consegue produzir aviões competitivos
internacionalmente, por que nossa produtividade média continua sendo um
problema?
Se conseguimos desenvolver tecnologias para águas
ultraprofundas, por que temos tantas dificuldades em transformar
conhecimento científico em inovação empresarial?
Se uma empresa que nasceu em Jaraguá do Sul consegue
obter 60% de sua receita fora do Brasil, por que tantas
empresas brasileiras têm dificuldade de internacionalização?
Se transformamos ciência tropical em uma potência
agropecuária, por que não conseguimos repetir a mesma intensidade de
transformação em mais setores?
Não nos falta prova de que somos capazes.
Talvez nos falte compreender melhor as condições que
permitiram que essas exceções existissem.
🔎 O que essas histórias
parecem ter em comum?
Não é a ideologia.
Também não é o tipo de propriedade.
O que começa a aparecer repetidamente é outra coisa:
conhecimento, capital humano, investimento persistente,
inovação, capacidade de gestão, escala, aprendizado, instituições,
relacionamento com mercados e continuidade.
Sobretudo continuidade.
- Tecnologia
offshore não foi construída em quatro anos.
- A
indústria aeronáutica brasileira não começou com o Gripen.
- A
WEG não se internacionalizou numa única gestão.
- A
agricultura tropical brasileira não nasceu numa safra.
- O
Boticário não construiu uma marca internacional em uma campanha
publicitária.
Desenvolvimento econômico exige algo com que nossa
política frequentemente tem dificuldade: pensar além do próximo mandato.
📖 A parábola das árvores
Imagine uma cidade cercada por uma terra que todos diziam
ser pouco fértil.
Um dia, alguém encontrou seis árvores enormes.
Uma produzia aviões. Outra produzia energia. Uma terceira
transformava ciência em alimentos. Outra fabricava motores. Havia ainda uma que
transformava flores e conhecimento em produtos vendidos pelo mundo e outra que
reunia centenas de pequenos produtores para que juntos fossem grandes.
Os moradores ficaram admirados.
Alguns disseram: "Foi o governo que
plantou."
Outros responderam: "Foi o mercado."
Outro grupo insistiu: "Foi o
empreendedor."
E começaram uma enorme discussão sobre quem deveria
receber o mérito.
Um velho agricultor que acompanhava a conversa permaneceu em
silêncio.
Até que alguém perguntou sua opinião.
Ele se abaixou, pegou um punhado de terra e respondeu:
"Vocês estão discutindo quem é dono das árvores. Eu
gostaria de descobrir o que existe neste solo que fez essas árvores
crescerem."
Talvez seja essa a pergunta que ainda precisamos fazer ao
Brasil.
🇧🇷 O Brasil que
pode dar certo
Stephen Kanitz nos provocou a enxergar um Brasil
que funcionava quando grande parte do debate se concentrava no Brasil que
fracassava.
Décadas depois, talvez possamos avançar um pouco mais.
- Petrobras prova
que uma empresa estatal pode produzir tecnologia de fronteira.
- WEG prova
que capital privado brasileiro pode competir mundialmente em engenharia.
- Embrapa mostra
o retorno de longo prazo da ciência pública.
- Embraer demonstra
que a fronteira entre Estado e mercado pode ser muito mais produtiva do
que imaginamos.
- Coamo mostra
a força do cooperativismo.
- Boticário mostra
que uma empresa nascida no Paraná pode transformar conhecimento, inovação
e marca em presença internacional.
- Ambev mostra
capacidade brasileira de gestão e internacionalização.
- Havan mostra
que escala, logística e execução também produzem valor.
Nenhum desses casos demonstra que determinado modelo
econômico é infalível.
Há estatais que fracassam. Há empresas privadas que
fracassam. Há cooperativas mal administradas. Há políticas públicas ruins. E
existem mercados que funcionam muito mal.
Talvez exatamente por isso a conclusão seja outra.
O Brasil que dá certo não é exclusivamente estatal nem
privado. Não é de direita nem de esquerda.
É o Brasil que consegue fazer conhecimento chegar à
empresa, transformar investimento em produtividade, produtividade em
competitividade e competitividade em melhores condições de desenvolvimento.
Uma economia mista não deveria significar simplesmente ter
um pouco de capitalismo e um pouco de socialismo.
Deveria significar utilizar diferentes instituições
onde elas conseguem produzir melhores resultados, submetendo todas elas a
eficiência, transparência, responsabilidade e avaliação.
Talvez o Brasil não precise escolher entre Estado e mercado.
Precise aprender a fazer Estado, mercado, universidade,
cooperativas, trabalhadores e sociedade funcionarem melhor juntos.
Porque já temos árvores extraordinárias.
Nosso próximo desafio é transformar as exceções numa
floresta.
📚 Referências:
- Kanitz,
S. (1994). O Brasil que Dá Certo. São Paulo: Editora Senac.
- Petrobras.
(2026). CENPES e desenvolvimento tecnológico offshore.
- Saab.
(2026). Programa Gripen e transferência de tecnologia.
- WEG.
(2026). Resultados e internacionalização.
- Embrapa.
(2026). Trajetória científica e inovação agrícola.
- Grupo
Boticário. (2026). Inovação e expansão internacional.
- Ambev/AB
InBev. (2026). Operações e internacionalização.
✍️ Nota do Blog: Texto
autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes.
As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

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