🚗⚡ Carro elétrico: o futuro chegou. Mas quem paga a tomada?
Da Noruega à Petrobras, a transição do automóvel é muito mais do que trocar um motor
✍️ Autor: Prof.
Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia,
desenvolvimento regional e sociedade
Na última vez em que escrevi sobre carros elétricos, fiz uma
pergunta bastante prática: elétrico, híbrido ou flex, qual pesa menos
no bolso?
Comparamos modelos reais, custos de aquisição, energia ou
combustível, manutenção, seguro, IPVA e depreciação. A conclusão foi que não
existe uma resposta única. Depende do carro, de quanto se roda, de onde se
recarrega e, principalmente, da realidade de cada consumidor.
Mas depois daquele texto fiquei com outra pergunta.
E se ampliarmos a lente?
Porque uma coisa é saber se um BYD Dolphin Mini pode ser
economicamente interessante diante de um Hyundai HB20, ou comparar um Haval H6
com um Jeep Compass. Outra, muito diferente, é imaginar milhões de
brasileiros fazendo essa mudança.
Nesse caso, já não estamos falando apenas de automóveis.
Estamos falando de energia, infraestrutura, postos,
oficinas, indústria, empregos, impostos, petróleo, etanol, Petrobras e
desenvolvimento econômico.
E aí a conversa fica muito mais interessante.
🚗A Noruega
chegou aos 97,6%. Mas atenção ao que esse número significa
Uma postagem que circulou recentemente nas redes sociais
dizia:
"Noruega não usa mais carros a combustão, quase 100%
dos carros são elétricos."
A mensagem impressiona, mas não é exatamente isso.
Em julho de 2026, a Noruega registrou 9.609
automóveis novos de passageiros. 97,61% dos novos
registros foram de veículos de emissão zero, praticamente todos elétricos a
bateria. No acumulado do ano, o percentual é semelhante: 97,62% .
É extraordinário.
Mas significa que praticamente todos os carros novos
vendidos são elétricos, e não que toda a frota norueguesa já seja elétrica.
Essa diferença parece pequena, mas é importante quando
usamos números para discutir Economia.
E a Noruega não chegou até aqui simplesmente porque seus
consumidores acordaram um dia apaixonados por baterias.
Durante anos o país construiu incentivos econômicos para
tornar o elétrico mais atraente. Houve vantagens tributárias, tarifas reduzidas
em pedágios e balsas e outros benefícios. Alguns desses incentivos vêm sendo
gradualmente modificados à medida que o mercado amadurece.
Em outras palavras, o consumidor respondeu aos
preços relativos e aos incentivos.
Nada muito diferente do que ensinamos nas primeiras aulas de
Economia na UTFPR.
📊 Dois países, duas
realidades
O Brasil também está avançando rapidamente, mas partindo de
uma realidade completamente diferente.
Em maio de 2026, já tínhamos 25.429 pontos públicos
e semipúblicos de recarga, crescimento de 20,7% em apenas
três meses. Desses, 8.606 eram carregadores rápidos DC. A frota
plug-in acumulada entre 2022 e maio de 2026 chegou a 505.806 veículos.
E as vendas seguem em ritmo acelerado. Em maio de 2026, os
veículos eletrificados alcançaram 17% de participação no mercado de
automóveis e comerciais leves, com 44.981 unidades emplacadas —
crescimento de 170,3% em relação a maio de 2025.
Vale colocar os números lado a lado, não para dizer quem
está "certo", mas para entender a dimensão da transformação.
|
Indicador |
Noruega |
Brasil |
|
Eletrificação de
novos veículos (2026) |
97,6% dos novos
registros |
17% dos novos
registros (maio/2026) |
|
Pontos de recarga
públicos/semipúblicos |
~30 mil (est.) |
25.429 (maio/2026) |
|
Crescimento da
rede em 3 meses |
— |
20,7% |
|
Frota plug-in
acumulada |
~1,2 milhão |
505.806 (2022–maio/2026) |
|
Carregadores
rápidos DC |
— |
8.606 |
Fontes: OFV/Noruega e ABVE/Tupi.
Portanto, não estamos parados. Muito pelo contrário.
Mas aqui surge uma questão que considero fundamental:
A Noruega deve ser o modelo que o Brasil simplesmente
copia?
Penso que não.
🔝O Brasil tem uma vantagem que não pode jogar fora
Nossa transição possui uma característica que muitas vezes
desaparece do debate.
Temos o etanol.
Construímos durante décadas uma cadeia de produção,
distribuição, pesquisa e tecnologia de biocombustíveis. O automóvel flex
tornou-se parte da própria história tecnológica da indústria brasileira.
Dados do Sindipeças mostram que os veículos flex
correspondiam a 76,2% da frota circulante analisada em 2023.
Isso significa que nossa discussão não precisa
necessariamente ser:
gasolina ou elétrico.
Pode ser muito mais sofisticada:
elétrico, híbrido, híbrido flex, etanol, biocombustíveis
e combustíveis fósseis em proporções progressivamente menores.
Desenvolvimento econômico raramente acontece pela simples
importação de uma solução estrangeira.
Cada país possui uma história produtiva, recursos naturais,
empresas, trabalhadores e vantagens comparativas construídas ao longo do tempo.
🔌 Comprar o carro é
apenas metade da história
Imagine que milhões de brasileiros decidam comprar
automóveis elétricos nos próximos anos.
Onde eles serão carregados?
Para quem mora numa casa com garagem e pode instalar um
carregador, a situação é relativamente simples.
Agora pense em quem mora em um prédio antigo. Em um
condomínio sem estrutura elétrica adequada. Em uma pequena cidade. Em quem
viaja regularmente por rodovias distantes dos grandes centros. Ou em quem
depende exclusivamente de carregadores públicos.
Estamos todos no mesmo processo de transformação
tecnológica, mas não partimos das mesmas condições.
É quase como aquela imagem conhecida: não estamos
necessariamente no mesmo barco, embora estejamos no mesmo mar.
A eletrificação exige carregadores, redes de distribuição,
geração de energia, transformadores, investimentos nos condomínios,
eletropostos nas rodovias e capacidade para atender simultaneamente milhares de
novos consumidores.
A tomada parece simples.
A infraestrutura que existe atrás dela não é.
🏭 E existe uma fábrica
atrás de cada automóvel
Agora chegamos a um ponto que considero ainda mais
importante.
O Brasil possui uma das maiores indústrias automobilísticas
do mundo.
A cadeia automotiva responde por aproximadamente 1,3
milhão de empregos, segundo dados divulgados pela Anfavea.
São montadoras, fabricantes de autopeças, concessionárias,
transportadoras, oficinas, fornecedores de máquinas, siderurgia, química,
borracha, engenharia, software e uma enorme rede de pequenos e médios negócios.
Um automóvel elétrico possui uma arquitetura muito
diferente daquela de um automóvel a combustão.
Saem ou diminuem vários componentes tradicionais. Entram
baterias, motores elétricos, inversores, eletrônica de potência,
semicondutores, sistemas digitais e muito mais software.
Portanto, a pergunta que deveríamos fazer não é apenas:
Quantos carros elétricos o Brasil conseguirá vender?
Para mim, existe uma pergunta economicamente mais
importante:
Quanto dessa nova cadeia o Brasil conseguirá produzir?
Porque podemos eletrificar nossa frota importando veículos,
baterias e componentes. Isso melhora uma parte do problema ambiental. Mas não
necessariamente produz o mesmo resultado em emprego, renda, inovação e
desenvolvimento tecnológico nacional.
👷 E quem trabalha hoje
com o motor a combustão?
Esse talvez seja um dos assuntos menos discutidos.
Pense no mecânico que passou 25 anos trabalhando com
motores. No fabricante de escapamentos. No fornecedor de peças para sistemas de
injeção. Na retífica. No posto de combustível. No profissional especializado em
câmbio.
A transição tecnológica cria novas profissões, mas também
reduz a demanda por outras.
O eletricista automotivo pode ganhar importância. O
especialista em bateria também. Engenheiros de software, eletrônica, automação,
sistemas de potência e dados terão novas oportunidades.
Mas não existe uma mágica pela qual alguém especializado
durante décadas em uma tecnologia acorde na manhã seguinte qualificado para
trabalhar em outra.
Transição tecnológica também significa qualificação e
requalificação profissional.
E isso exige tempo, universidades, institutos federais,
escolas técnicas, empresas e políticas públicas.
🛢️ E a Petrobras?
Aqui talvez esteja a maior particularidade brasileira.
Temos uma das maiores empresas de petróleo do mundo.
O que acontece com a Petrobras se os automóveis
progressivamente deixarem de consumir gasolina?
A primeira resposta é simples: a Petrobras não desaparece
porque o automóvel ficou elétrico.
Petróleo não serve apenas para abastecer carros. Está
presente na aviação, transporte, indústria petroquímica, lubrificantes e
inúmeros produtos e processos.
Além disso, a mudança da frota leva décadas.
A própria Petrobras ainda prevê forte produção de petróleo
nos próximos anos. Seu Plano de Negócios 2026–2030 projeta pico de produção de
óleo de aproximadamente 2,7 milhões de barris por dia em 2028 e
destina US$ 69,2 bilhões aos projetos de exploração e produção
de sua carteira de implantação.
Mas há outra informação tão importante quanto essa.
A Petrobras já está se preparando para ser mais do que
uma empresa de petróleo.
Seu planejamento define a ambição de atuar como empresa
integrada e diversificada de energia, conciliando petróleo e gás com
negócios de baixo carbono. O plano 2026–2030 prevê aproximadamente US$
13 bilhões em iniciativas relacionadas à transição energética,
incluindo biocombustíveis, bioprodutos, descarbonização e pesquisa,
desenvolvimento e inovação.
Entre as prioridades aparecem etanol, biodiesel, biometano,
combustível sustentável de aviação, diesel renovável e estudos envolvendo
energia solar, eólica, hidrogênio e armazenamento de energia.
Talvez aí esteja uma mudança conceitual importante:
a pergunta sobre o futuro da Petrobras não deveria ser
apenas quanto petróleo ela produzirá?
Deveria ser:
quanta energia, tecnologia e valor agregado ela será
capaz de produzir quando o petróleo tiver importância relativamente menor?
📉 Mas essa transformação
não é gratuita – NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS...
Aqui entra uma palavra que considero essencial:
transição.
Transição significa que existe um ponto de partida e outro
de chegada. E existe um caminho entre eles.
Se a mudança for lenta demais, podemos perder
competitividade tecnológica e industrial. Se for rápida demais e mal planejada,
podemos destruir investimentos, empresas e empregos antes que as novas
atividades estejam suficientemente desenvolvidas.
É o conhecido problema dos ativos encalhados,
ou stranded assets: fábricas, equipamentos e infraestrutura
economicamente valiosos hoje que podem perder valor rapidamente diante de uma
mudança tecnológica.
É por isso que a expressão transição justa faz
sentido econômico.
Não significa impedir a inovação para preservar eternamente
tecnologias antigas. Significa permitir que trabalhadores, empresas e regiões
tenham condições de participar da nova economia.
💰 A política industrial
voltou para essa discussão
O Brasil já começou a responder institucionalmente a esse
desafio.
O programa MOVER – Mobilidade Verde e Inovação,
criado pela Lei nº 14.902/2024, procura combinar descarbonização, eficiência
energética, inovação, reciclagem e competitividade da indústria automobilística
brasileira.
Entre outros mecanismos, o programa:
- Cria
incentivos à pesquisa e desenvolvimento
- Estabelece
requisitos de eficiência e emissões considerando progressivamente uma
visão mais ampla do ciclo energético do veículo
- Oferece
créditos financeiros para empresas que investem em P&D no Brasil (50%
dos dispêndios realizados, com acréscimos que podem chegar a 320% do valor
dos dispêndios)
- Estimula
a produção de tecnologias de propulsão avançadas e sustentáveis, veículos
com essas tecnologias e sistemas eletrônicos embarcados
O programa sucedeu o Rota 2030 e está alinhado à
neoindustrialização e às tendências globais de descarbonização.
Esse ponto é importante.
Porque talvez a política correta não seja simplesmente
subsidiar a compra de determinado automóvel. Pode ser mais importante estimular
pesquisa, engenharia, produção local, baterias, componentes, software,
infraestrutura de recarga e qualificação profissional.
O desafio não é apenas consumir a tecnologia do
futuro. É participar economicamente da sua produção.
📊 A conta que realmente
interessa ao Brasil
Eu resumiria nossa discussão desta forma:
|
A transição pode
reduzir |
Mas também precisa
criar |
|
Consumo de
gasolina |
Nova infraestrutura
energética |
|
Emissões dos
veículos |
Energia de baixo carbono |
|
Manutenção
mecânica tradicional |
Serviços
especializados em eletrificação |
|
Demanda por
algumas autopeças |
Baterias, eletrônica e software |
|
Dependência do
motor a combustão |
Capacidade tecnológica
nacional |
|
Algumas ocupações
tradicionais |
Novas qualificações e empregos |
|
Participação
futura do petróleo no transporte leve |
Novos negócios para a
Petrobras |
Essa, para mim, é a conta econômica que realmente interessa.
🌎 Talvez não exista
apenas um caminho
Voltemos à Noruega.
Seu resultado é impressionante. Mas a Noruega encontrou
o caminho norueguês.
O Brasil precisa encontrar o brasileiro.
Temos petróleo. Temos Petrobras. Temos etanol. Temos uma
matriz elétrica com grande participação de fontes renováveis. Temos indústria
automobilística. Temos universidades, centros de pesquisa e capacidade de
engenharia. E estamos formando um novo mercado de veículos eletrificados.
Portanto, talvez nosso maior erro fosse transformar a
discussão numa torcida entre "elétrico" e "combustão".
Economia não deveria funcionar como torcida organizada.
Precisamos perguntar qual combinação tecnológica
permite reduzir emissões sem abrir mão de emprego, renda, inovação, segurança
energética e capacidade produtiva nacional.
📖 Uma pequena parábola:
trocar o motor ou construir o futuro?
Imagine uma cidade que utilizasse barcos para atravessar um
grande rio.
Durante décadas, centenas de pessoas aprenderam a
construí-los, consertá-los e abastecê-los.
Um dia surgiu uma ponte. Era mais rápida, moderna, eficiente
e segura.
A cidade poderia simplesmente comprar a tecnologia da ponte
de fora. Os barcos desapareceriam. Os antigos trabalhadores perderiam espaço. E
a cidade passaria a pagar a outros pela nova tecnologia.
Ou poderia fazer diferente.
Poderia aprender a construir pontes. Formar engenheiros.
Capacitar trabalhadores. Criar empresas. Produzir materiais. Desenvolver
tecnologia.
A travessia seria modernizada do mesmo jeito. Mas o
resultado econômico seria completamente diferente.
A inovação estava na ponte. O desenvolvimento estava em
aprender a construí-la.
Talvez seja exatamente esse o desafio brasileiro diante do
carro elétrico.
🔎 Afinal, qual futuro
queremos?
Depois de olhar os números da Noruega, não fico pensando
apenas quando o Brasil chegará aos 50%, 80% ou 97% de automóveis elétricos
entre os veículos novos.
Minha pergunta é outra.
Quando chegarmos lá, quem terá produzido os carros, as
baterias, os carregadores, o software e a energia?
Quantos empregos teremos criado? Quantos trabalhadores
teremos requalificado? Quanto conhecimento ficará nas nossas universidades e
empresas? E qual será o papel da Petrobras nesse novo sistema energético?
Porque podemos importar milhões de automóveis elétricos e
comemorar a modernização da frota.
Ou podemos aproveitar uma das maiores transformações
tecnológicas da indústria automobilística em mais de um século para também
produzir conhecimento, indústria, renda e desenvolvimento.
É uma diferença enorme.
No final, continuo acreditando que o futuro do automóvel
será cada vez mais eletrificado.
Mas acrescentaria algo depois de olhar a questão pela ótica
do desenvolvimento econômico:
A tomada, sozinha, não produz desenvolvimento. O que
produz desenvolvimento é aquilo que um país consegue construir ao redor dela.
📚 Referências:
- ABVE.
(2026). Infraestrutura de recarga para VEs supera 25 mil pontos e
cresce 21% em três meses. Disponível em: https://www.pv-magazine-brasil.com/2026/06/18/infraestrutura-de-recarga-para-ves-supera-25-mil-pontos-e-cresce-21-em-tres-meses/
- ABVE.
(2026). Veículos eletrificados atingem 16% do mercado brasileiro
em abril. Disponível em: https://reparacaoautomotiva.com.br/2026/05/11/veiculos-eletrificados-16-mercado-brasileiro-abril-2026/
- ABVE.
(2026). Brasil vende quase 45 mil eletrificados em maio: novo
recorde histórico. Disponível em: https://insideevs.uol.com.br/news/797729/carros-eletrificados-vendas-maio-brasil/
- Anfavea.
(2026). Emprego e impacto econômico do setor automotivo.
- Lei
nº 14.902/2024 – Programa MOVER. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14902.htm
- OFV
– Opplysningsrådet for veitrafikken. (2026). Dados do mercado
norueguês.
- Petrobras.
(2026). Plano de Negócios 2026–2030.
- Petrobras.
(2026). Plano Estratégico Petrobras 2050.
- Sindipeças.
(2023). Dados da frota flex no Brasil.
✍️ Nota do Blog: Texto
autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes.
As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

Análise muito interessante.
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