📚 A tecnologia não substitui um bom professor
O que a Europa pode nos ensinar sobre educação, inovação e desenvolvimento
✍️ Autor: Prof.
Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia,
desenvolvimento regional e sociedade
📖 Uma reflexão que nasceu
de uma manchete
Nos últimos dias chamou minha atenção uma série de
reportagens afirmando que países como Suécia, Finlândia, Noruega,
França, Itália e Dinamarca estariam revendo o uso excessivo de telas
nas escolas e retomando — principalmente nos primeiros anos de alfabetização —
livros impressos, cadernos e a escrita à mão.
Confesso que, como professor da UTFPR, a manchete me
provocou.
Seria um fracasso da tecnologia?
Na minha opinião, não.
A lição parece ser exatamente outra.
A tecnologia nunca foi o problema. O problema foi acreditar
que ela, sozinha, poderia substituir aquilo que sempre esteve no centro da
educação: um bom professor, uma metodologia consistente e um objetivo
pedagógico bem definido.
🌍 O que realmente
aconteceu?
A Suécia tornou-se um dos países mais digitalizados do
mundo. Durante anos investiu fortemente na utilização de tablets e computadores
na educação básica.
Entretanto, os resultados do PISA 2022,
coordenado pela OCDE, mostraram uma queda no desempenho em leitura,
especialmente entre estudantes de 15 anos.
Diante desse cenário, o governo sueco anunciou novos
investimentos na aquisição de livros didáticos impressos e reforçou a
importância da leitura e da escrita manual nos primeiros anos escolares.
Mas é importante compreender o contexto.
Os próprios especialistas suecos afirmam que o
problema nunca foi a tecnologia. O problema foi sua utilização sem objetivos
pedagógicos suficientemente claros.
Ou seja: não se trata de abandonar o digital. Trata-se de
utilizá-lo no momento certo e para a finalidade correta.
📊 O que mostram os
números?
|
Indicador |
Resultado |
|
Estudantes suecos
abaixo do nível básico de leitura (PISA 2022) |
24% |
|
Estudantes
brasileiros abaixo do nível básico de leitura (PISA 2022) |
50% |
|
📚 Investimento anunciado pela
Suécia em livros didáticos impressos |
mais de US$ 200
milhões |
|
🌍 Média da OCDE em leitura
(PISA 2022) |
476 pontos |
|
Suécia em leitura
(PISA 2022) |
487 pontos |
|
Brasil em leitura
(PISA 2022) |
410 pontos |
|
💻 Escolas brasileiras com
acesso à internet (Censo Escolar 2023) |
cerca de 95% |
|
👩🏫 Professores brasileiros que
relatam necessidade de mais formação para uso pedagógico de tecnologia |
maioria segundo TIC Educação |
Fontes: OCDE (PISA 2022), UNESCO (2023), Censo Escolar
INEP (2023), TIC Educação (CETIC.br).
Os números mostram algo interessante.
A Suécia continua apresentando desempenho superior ao
brasileiro em leitura, mesmo após a queda observada nos últimos anos.
O debate europeu, portanto, não é sobre ausência de
tecnologia. É sobre como utilizá-la melhor.
Já no Brasil, o desafio continua sendo duplo: ampliar
o acesso e melhorar a qualidade do uso pedagógico das ferramentas digitais.
Em outras palavras: enquanto alguns países discutem excesso,
nós ainda precisamos discutir eficiência.
📱 Tela ou papel? O que a
ciência sugere
|
Etapa da
aprendizagem |
Ferramenta mais
recomendada |
|
Alfabetização |
📚 Livro físico, escrita manual |
|
Compreensão de
leitura |
📖 Livro Físico ou Texto impresso |
|
Pesquisa |
💻 Recursos digitais |
|
Programação |
🖥️ Computador |
|
Simulações e
laboratórios |
💻 Tecnologias digitais |
|
Resolução de
problemas complexos |
🔄 Combinação de métodos |
|
Desenvolvimento
do pensamento crítico |
👩🏫 Mediação do professor |
Essa tabela conversa diretamente com a principal tese do
texto:
A pergunta correta não é tela ou papel. A pergunta
correta é qual ferramenta gera mais aprendizagem em cada situação.
📱 A pergunta talvez
esteja errada
Sempre que surge esse debate, observo que muitos fazem a
pergunta da maneira errada.
"Papel ou tela?"
Talvez essa nunca tenha sido a verdadeira questão.
A pergunta mais importante deveria ser:
👉 Que ferramenta
favorece melhor determinada aprendizagem, em determinada idade e em determinado
contexto?
- Um
livro pode ser excelente para estimular concentração, interpretação e
leitura profunda.
- Um
simulador computacional pode ser insubstituível para ensinar engenharia.
- Uma
plataforma digital pode aproximar pesquisadores de diferentes continentes.
Cada ferramenta possui seu espaço.
O erro está em imaginar que exista uma solução única para
todos os problemas educacionais.
🧠 A ciência já discutia
isso
Diversos pesquisadores vêm mostrando que a aprendizagem
depende muito mais da forma como ensinamos do que da
ferramenta utilizada.
O psicólogo Lev Vygotsky defendia que o
conhecimento é construído por meio das interações sociais e da mediação do
professor.
Décadas depois, Paulo Freire reforçou que
ensinar não consiste em transferir informações, mas em criar condições para que
o estudante produza seu próprio conhecimento.
Mais recentemente, a UNESCO alertou, em seu
relatório Global Education Monitoring Report 2023, que a
tecnologia deve servir aos objetivos da educação, e não determinar esses
objetivos.
A mensagem é clara.
Primeiro vem a pedagogia. Depois vem a tecnologia. Nunca
o contrário.
🎓 Como professor da UTFPR
Essa discussão me faz lembrar algo que costumo dizer aos
meus alunos.
- Nenhum
engenheiro resolve um problema apenas porque possui um software melhor.
- Nenhum
economista faz uma boa análise apenas porque utiliza uma planilha
sofisticada.
- Nenhum
pesquisador produz ciência apenas porque dispõe de computadores mais
rápidos.
As ferramentas potencializam o conhecimento. Mas não o
substituem.
O mesmo vale para a Inteligência Artificial.
Ela pode ampliar nossa capacidade de aprender, pesquisar e
criar. Mas não elimina a necessidade de pensar criticamente.
🇧🇷 O desafio
brasileiro é diferente
Existe outro aspecto que merece atenção.
Enquanto alguns países europeus discutem o excesso de
tecnologia em determinadas etapas da educação, o Brasil ainda enfrenta desafios
muito mais básicos.
- Muitas
escolas ainda carecem de infraestrutura adequada.
- Há
desigualdades significativas no acesso à internet.
- A
formação continuada de professores continua sendo um enorme desafio.
Isso significa que simplesmente copiar soluções estrangeiras
dificilmente produzirá bons resultados.
Cada país precisa construir políticas educacionais coerentes
com sua própria realidade.
Mais importante do que importar equipamentos é importar
boas ideias.
🌎 Educação também é
desenvolvimento
Como economista, não consigo separar educação de
desenvolvimento econômico.
Amartya Sen mostrou que desenvolver um país
significa ampliar as capacidades das pessoas. Educação de qualidade talvez seja
a mais importante dessas capacidades.
Da mesma forma, o modelo da Triple Helix,
desenvolvido por Henry Etzkowitz e aprofundado por Marina
Ranga, demonstra que universidades, empresas e governos precisam trabalhar
de forma integrada para transformar conhecimento em inovação.
Contudo, a base dessa hélice não é feita de máquinas ou
softwares, mas sim de pessoas preparadas para fazer boas perguntas. Sem uma
educação de base sólida mediada por bons professores, os laboratórios das
universidades e os departamentos de P&D das empresas simplesmente não
encontram combustível para inovar.
Mas inovação não nasce apenas de computadores. Nasce
de pessoas preparadas para fazer boas perguntas.
🌉 A parábola do martelo
Conta-se que um jovem aprendiz recebeu de presente um
martelo novinho.
Entusiasmado, passou o dia procurando algo para martelar.
Pregos. Tábuas. Portas.
Ao final da tarde, orgulhoso, disse ao mestre:
— "Este martelo resolve qualquer
problema."
O velho sorriu. Pegou uma chave de fenda. Depois uma serra.
Depois um pincel.
E respondeu:
— "Ferramentas não resolvem problemas. Quem
resolve é quem sabe quando utilizar cada uma delas."
Talvez aconteça exatamente o mesmo com a tecnologia.
Tablets. Livros. Computadores. Inteligência Artificial.
Todos são instrumentos.
A aprendizagem continua dependendo da inteligência
humana.
💰 A ótica da eficiência
alocativa
Do ponto de vista econômico e financeiro, o recuo europeu
nos deixa uma lição clara sobre a alocação de recursos públicos e privados. No
jargão econômico, o erro reside em focar estritamente na aquisição de bens de
capital tangíveis — como a compra massiva de hardwares — negligenciando o
investimento complementar em capital humano e capacidade de absorção.
Para países em desenvolvimento como o Brasil, o custo de
oportunidade de investir em tecnologias sem o devido respaldo pedagógico é
altíssimo. O retorno sobre o investimento (ROI) em educação não se mede pelo
número de telas conectadas por metro quadrado, mas pela produtividade marginal
do aprendizado que essas ferramentas geram. Sem a mediação eficiente do
professor, o gasto digital se transforma em mera depreciação de ativos, sem
impacto real no crescimento de longo prazo e na formação de mão de obra qualificada.
🌱 Reflexão Final
A discussão não deveria ser "papel ou
tela". Nem "livro ou tablet". Muito menos "professor
ou Inteligência Artificial".
A verdadeira pergunta é outra:
👉 Como utilizar
cada ferramenta para formar cidadãos mais preparados, críticos, criativos e
capazes de resolver problemas?
Continuo acreditando profundamente na tecnologia. Ela
transformou a medicina, a engenharia, a agricultura, a economia e continuará
transformando a educação.
Mas continuo acreditando ainda mais nas pessoas.
Porque nenhuma tela substitui a curiosidade. Nenhum
algoritmo substitui o pensamento crítico. E nenhuma tecnologia substitui um
professor capaz de despertar no estudante o prazer de aprender.
Talvez essa seja a maior lição que a Europa pode nos
oferecer.
Não abandonar a tecnologia.
Mas recolocá-la no lugar que sempre deveria ter
ocupado.
O de excelente ferramenta. Nunca o de protagonista da
educação.
📚 Referências:
- Freire,
P. (1996). Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra.
- Etzkowitz, H., & Ranga, M.
(2013). Triple Helix Systems: An Analytical Framework for Innovation
Policy and Practice. Industry and Higher Education,
27(4), 237–262.
- OECD. (2023). PISA 2022
Results. Paris: OECD Publishing.
- Sen, A. (1999). Development
as Freedom. Oxford: Oxford University Press.
- UNESCO. (2023). Global
Education Monitoring Report 2023: Technology in Education – A Tool on
Whose Terms? Paris: UNESCO.
- Vygotsky, L. (1978). Mind
in Society. Cambridge: Harvard University Press.
✍️ Nota do Blog: Texto
autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes.
As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

👏👏👏
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