📈 Quando a universidade transforma conhecimento em desenvolvimento: o que a ENACTUS pode ensinar à Economia brasileira


Empreendedorismo social, capital humano e desenvolvimento regional: muito além dos muros da universidade

✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, desenvolvimento regional e sociedade

 

Durante muitos anos, aprendemos que a principal missão de uma universidade era ensinar, pesquisar e formar profissionais qualificados para o mercado de trabalho. Essa visão continua correta, mas já não é suficiente para explicar o papel que as instituições de ensino superior desempenham na economia do século XXI.

Vivemos em uma sociedade em que conhecimento, inovação e capacidade empreendedora passaram a representar fatores tão importantes quanto terra, capital e trabalho. Países que mais crescem economicamente investem não apenas em infraestrutura ou incentivos fiscais, mas principalmente na formação de pessoas capazes de identificar problemas, criar soluções e gerar impacto positivo na sociedade.

Como economista, gosto de dizer que uma universidade não produz apenas diplomas. Ela produz aquilo que talvez seja o recurso mais valioso de qualquer nação: capital humano.

"Embora seja óbvio que as pessoas adquirem habilidades úteis e conhecimento, não é óbvio que essas habilidades e conhecimento sejam uma forma de capital, que este capital seja, em grande parte, produto de investimentos deliberados."

— Theodore Schultz (1961)

Essa expressão foi amplamente desenvolvida pelos economistas Theodore Schultz e Gary Becker, ambos laureados com o Prêmio Nobel de Economia. Segundo eles, investir em educação significa aumentar a produtividade das pessoas e, consequentemente, ampliar a capacidade de desenvolvimento econômico de uma região.

Mas existe um passo além.

Hoje espera-se que universidades também sejam capazes de transformar conhecimento científico em benefícios concretos para a sociedade.

É exatamente nesse contexto que iniciativas como a ENACTUS ganham importância.

Não se trata apenas de um projeto estudantil. Trata-se de um laboratório de desenvolvimento econômico aplicado.

 

🌍 Muito além da sala de aula - no Brasil e no Mundo

Imagine um grupo de estudantes reunido para resolver um problema da comunidade. Ao invés de simplesmente elaborar um relatório ou apresentar um seminário, esses alunos conversam com moradores, empresas, poder público e organizações sociais para construir uma solução capaz de permanecer funcionando mesmo depois que eles se formarem.

Essa é, em essência, a proposta da ENACTUS.

Presente em dezenas de países, a organização mobiliza estudantes universitários para desenvolver projetos baseados no empreendedorismo social, buscando gerar impactos econômicos, sociais e ambientais alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

Embora muitos associem empreendedorismo apenas à criação de empresas, a proposta da ENACTUS é mais ampla. Ela incentiva o uso do empreendedorismo como instrumento de transformação da realidade.

Em outras palavras, o objetivo não é apenas abrir negócios. É desenvolver soluções economicamente sustentáveis para problemas reais.

Essa diferença parece pequena, mas representa uma profunda mudança de paradigma. Enquanto projetos assistencialistas costumam gerar dependência, projetos empreendedores procuram criar autonomia.

Na Economia, isso faz toda a diferença.

 

🧠 O empreendedorismo como ferramenta de desenvolvimento

"O impulso fundamental que põe e mantém em movimento a máquina capitalista são os novos bens de consumo, os novos métodos de produção ou transporte, os novos mercados e as novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria."

— Joseph Schumpeter (1911)

O economista austríaco Joseph Schumpeter defendia que o desenvolvimento econômico ocorre quando indivíduos inovadores rompem a rotina existente e criam novas combinações produtivas. Em linguagem simples, significa dizer que inovação não depende apenas de grandes empresas ou laboratórios sofisticados. Ela pode surgir quando alguém encontra uma maneira diferente de resolver um problema antigo.

Essa visão dialoga diretamente com a proposta da ENACTUS. Ao incentivar estudantes a trabalharem diretamente com comunidades, pequenos produtores, cooperativas, associações e grupos vulneráveis, cria-se um ambiente onde conhecimento acadêmico encontra problemas concretos. E quando isso acontece, surgem oportunidades de inovação.

Talvez seja justamente esse um dos maiores ensinamentos da Economia contemporânea. Nem toda inovação nasce em um centro tecnológico. Muitas começam dentro de uma sala de aula.

 

🏛️ A universidade do século XXI

Henry Etzkowitz e Marina Ranga, pesquisadores reconhecidos internacionalmente pelos estudos sobre a Triple Helix, defendem que universidades deixaram de ser apenas instituições de ensino . Passaram também a desempenhar funções de desenvolvimento regional, empreendedorismo e inovação.

Isso significa que:

  • ensinar continua sendo essencial;
  • pesquisar continua sendo indispensável;
  • mas também é necessário contribuir diretamente para melhorar a qualidade de vida das comunidades onde essas universidades estão inseridas.

Essa mudança pode ser observada em diversas instituições brasileiras:

  • Empresas juniores
  • Incubadoras
  • Hackathons
  • Parques tecnológicos
  • Projetos de extensão
  • Laboratórios de inovação
  • E, naturalmente, equipes da ENACTUS

Todos representam diferentes caminhos para aproximar universidade e sociedade.

 

📊 Da universidade tradicional à universidade empreendedora

Universidade Tradicional

Universidade Empreendedora

Foco no ensino e na pesquisa

Ensino, pesquisa e extensão integradas

Isolada do mercado e da comunidade

Conectada com empresas e sociedade

Forma profissionais para o mercado

Forma agentes de transformação

O conhecimento fica nos muros

O conhecimento é aplicado em problemas reais

Principal produto: o diploma

Principal produto: impacto social e econômico

 

🌱 Desenvolvimento regional começa pelas pessoas

Existe uma ideia bastante difundida de que o desenvolvimento regional depende exclusivamente da chegada de grandes empresas. Naturalmente, investimentos produtivos são importantes. Entretanto, dificilmente uma região cresce de forma sustentável sem pessoas preparadas para aproveitar essas oportunidades.

Foi exatamente essa percepção que levou Amartya Sen, também vencedor do Prêmio Nobel de Economia, a propor uma visão diferente sobre desenvolvimento. Para Sen, desenvolvimento não significa apenas aumento da renda. Significa ampliar as capacidades das pessoas para que possam fazer escolhas, empreender, produzir e transformar sua própria realidade .

Sob essa perspectiva, projetos universitários deixam de ser apenas atividades acadêmicas. Passam a representar investimentos na capacidade produtiva de uma comunidade.

Cada estudante que aprende a identificar problemas, dialogar com diferentes instituições, elaborar projetos, captar recursos e construir soluções está desenvolvendo competências que permanecerão por toda a vida. Mesmo que o projeto termine. Mesmo que a equipe seja renovada. O conhecimento permanece. E conhecimento compartilhado produz desenvolvimento.

 

🔄 Quando teoria e prática caminham juntas

Ao longo dos últimos anos, diversos estudos têm demonstrado que ecossistemas de inovação mais desenvolvidos apresentam uma característica comum: universidades, empresas, governo e sociedade civil trabalham de forma integrada.

Essa cooperação gera aquilo que Albert Hirschman chamava de encadeamentos produtivos .

Uma ação produz outra. Que produz outra. Que produz outra.

  • Um pequeno projeto universitário pode fortalecer uma associação.
  • Essa associação melhora sua gestão.
  • Aumenta sua produtividade.
  • Gera mais renda.
  • Movimenta o comércio local.
  • Cria novas oportunidades.
  • Fortalece a economia regional.

O investimento inicial talvez tenha sido pequeno. Mas seus efeitos multiplicadores tornam-se muito maiores.

Talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante da ENACTUS. Ela não procura apenas resolver um problema imediato. Procura criar condições para que as próprias comunidades continuem caminhando com autonomia. Na linguagem econômica, isso significa transformar assistência em capacidade produtiva.

 

📍 Um estudo de caso próximo de nós: o Projeto Loop

Todas essas teorias poderiam permanecer apenas nos livros. Entretanto, felizmente existem exemplos concretos capazes de demonstrar que esse modelo funciona na prática.

Um deles aconteceu aqui mesmo no norte do Paraná, na UTFPR – Campus Cornélio Procópio. Por meio da equipe ENACTUS - que tive a honra de acompanhar como professor conselheiro,  ao lado do Professor Cleverson Flor da Rosa - estudantes de diferentes cursos passaram a desenvolver projetos voltados para necessidades reais da comunidade, aproximando universidade, poder público e organizações sociais.

Entre essas iniciativas, uma merece destaque especial: o Projeto Loop, desenvolvido em parceria com a Prefeitura de Santa Mariana e com os trabalhadores da reciclagem.

 

♻️ O Projeto Loop: quando conhecimento gera autonomia

O Projeto Loop nasceu de uma parceria entre a equipe ENACTUS da UTFPR – Campus Cornélio Procópio, a Prefeitura de Santa Mariana e os trabalhadores responsáveis pela coleta e reciclagem de resíduos sólidos no município.

À primeira vista, poderia parecer apenas mais um projeto de extensão universitária. Entretanto, uma análise econômica mostra que sua contribuição foi muito mais ampla.

A iniciativa buscou transformar uma realidade marcada pela informalidade em uma atividade mais organizada, estruturada e capaz de gerar renda de forma sustentável. O antigo lixão do município deu lugar à Associação Recicle Vidas, fortalecida por ações de capacitação em informática, gestão, organização administrativa e melhoria das condições de trabalho de aproximadamente 15 a 19 associados.

Mais importante do que a infraestrutura construída foi a construção de capacidades.

Os estudantes não entregaram apenas equipamentos ou orientações técnicas. Compartilharam conhecimento. Ensinaram métodos de organização. Estimularam planejamento. Contribuíram para melhorar processos de trabalho.

Em Economia, essa diferença é fundamental. Recursos financeiros podem acabar. Conhecimento permanece. É justamente essa permanência que diferencia políticas assistencialistas de estratégias de desenvolvimento.

 

💡 A lógica econômica por trás do Projeto Loop

Albert Hirschman, um dos maiores economistas do desenvolvimento, afirmava que economias crescem quando determinados investimentos provocam efeitos em cadeia, estimulando novas atividades produtivas. Chamava esse fenômeno de encadeamentos produtivos .

O Projeto Loop ilustra essa teoria de forma bastante clara.

Ao fortalecer a organização dos catadores, surgem diversos efeitos indiretos:

  • melhora da gestão da associação
  • aumento da produtividade do trabalho
  • maior valorização dos materiais recicláveis
  • geração de renda para as famílias envolvidas
  • redução de impactos ambientais
  • fortalecimento da economia circular
  • aproximação entre universidade, poder público e comunidade

Nenhum desses resultados ocorre isoladamente. Cada melhoria cria condições para outra. Essa é exatamente a lógica defendida por Hirschman: pequenas intervenções bem planejadas podem produzir impactos muito maiores do que seu investimento inicial.

 

🌱 Muito além da reciclagem

Talvez o maior legado do Projeto Loop não esteja nos resíduos reciclados. Está nas pessoas.

Ao desenvolver competências em gestão, organização e empreendedorismo, cria-se algo extremamente difícil de medir estatisticamente: confiança.

Pessoas que antes trabalhavam de forma isolada passam a atuar coletivamente. Aprendem a negociar. A planejar. A administrar recursos. A tomar decisões.

Sob a ótica econômica, isso representa um aumento do capital humano e também do chamado capital social , conceito amplamente discutido por Robert Putnam . Comunidades que cooperam conseguem resolver problemas com maior eficiência. Essa cooperação reduz custos de transação, fortalece relações de confiança e amplia a capacidade de desenvolvimento local.

Em outras palavras, o projeto não fortaleceu apenas uma associação. Fortaleceu relações entre pessoas. E relações também produzem riqueza.

 

📊 Impactos econômicos do Projeto Loop

Dimensão

Resultados observados

Econômica

Capacitação em gestão e organização da atividade produtiva

Social

Fortalecimento da Associação Recicle Vidas e inclusão dos trabalhadores

Ambiental

Valorização da reciclagem e redução dos impactos ambientais

Educacional

Aplicação prática do conhecimento universitário

Institucional

Cooperação entre universidade, prefeitura e comunidade

Fonte: Adaptado do Relatório Anual ENACTUS Brasil e informações institucionais da UTFPR.

 

🎓 Quando os estudantes se tornam agentes de desenvolvimento

Existe uma percepção equivocada de que estudantes apenas aprendem enquanto permanecem na universidade. Projetos como esse mostram exatamente o contrário.

  • Enquanto aprendem, também ensinam.
  • Enquanto recebem conhecimento, também produzem conhecimento.
  • Enquanto se qualificam profissionalmente, ajudam outras pessoas a ampliarem suas oportunidades.

Essa troca beneficia todos os envolvidos.

Os estudantes desenvolvem competências dificilmente adquiridas apenas em sala de aula: liderança, gestão de projetos, negociação, empatia, planejamento, avaliação de resultados e relacionamento institucional. Do outro lado, comunidades recebem soluções construídas com base em conhecimento científico e metodologias de gestão.

Todos ganham.

Essa talvez seja uma das maiores contribuições da extensão universitária para o desenvolvimento regional.

 

🏆 Reconhecimento e continuidade

Em 2023, a equipe ENACTUS da UTFPR – Campus Cornélio Procópio demonstrou sua força ao ser finalista no Prêmio Marqueterie de Comunicação durante as celebrações dos 25 anos da ENACTUS Brasil. Esse reconhecimento comprovou a qualidade do trabalho desenvolvido e o potencial da metodologia ENACTUS para gerar impacto real no território.

Atualmente, a equipe encontra-se em um momento de menor atividade. Projetos como o Loop, no entanto, continuam vivos como exemplos concretos do que o empreendedorismo social universitário pode alcançar quando há articulação entre universidade, poder público e comunidade.

Enquanto isso, o movimento nacional da ENACTUS avança. O ENEB 2026, realizado entre os dias 21 e 24 de julho na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) , em Campo Grande, consagrou a ENACTUS UFPA como campeã nacional. O time vencedor garantiu o direito de representar o Brasil na ENACTUS World Cup 2026, em São Paulo.

A trajetória da UTFPR-CP, embora em pausa, deixou um legado. As metodologias desenvolvidas, as parcerias estabelecidas e a experiência adquirida permanecem como base para o futuro.

Há intenção de reativar a equipe nos próximos anos (2027/2028), retomando o trabalho de transformação social por meio do empreendedorismo. Quando isso acontecer, o conhecimento acumulado e a experiência anterior servirão como alicerce para novos projetos.

O desenvolvimento também é cumulativo. Assim como o conhecimento.

 

💡 O que a Economia pode aprender com a ENACTUS?

Como economista, vejo iniciativas como essa sob uma perspectiva muito simples.

Durante muito tempo discutimos desenvolvimento pensando apenas em grandes investimentos, incentivos fiscais, infraestrutura e atração de empresas. Tudo isso continua sendo importante. Mas talvez tenhamos subestimado o maior ativo de qualquer região:

As pessoas.

Nenhuma política pública será suficiente se não houver cidadãos preparados para empreender, cooperar, inovar e resolver problemas. Da mesma forma, nenhuma universidade cumpre plenamente sua missão se permanecer isolada da realidade onde está inserida.

Projetos como a ENACTUS mostram que conhecimento acadêmico pode produzir efeitos concretos na economia local. Mais do que formar profissionais, formam cidadãos capazes de transformar comunidades.

E essa talvez seja a definição mais completa de desenvolvimento econômico.

 

📖 A parábola das sementes

Conta-se que dois agricultores receberam a mesma quantidade de sementes.

O primeiro decidiu guardá-las em um depósito, acreditando que um dia poderiam valer mais. O segundo preferiu distribuí-las entre seus vizinhos, ensinando cada um a cultivar corretamente.

Alguns anos depois, o primeiro ainda possuía suas sementes. O segundo já não conseguia contar quantos campos produziam graças àquele pequeno gesto inicial.

Conhecimento funciona exatamente assim. Quando é guardado, permanece limitado. Quando é compartilhado, multiplica-se.

Universidades existem justamente para plantar conhecimento. Projetos como a ENACTUS demonstram que, quando essas sementes encontram solo fértil na comunidade, os frutos deixam de ser apenas acadêmicos. Transformam-se em desenvolvimento econômico, inclusão social, inovação e esperança para toda uma região.

 

 

 

📚 Referências:

  • Becker, G. S. (1993). Human Capital: A Theoretical and Empirical Analysis, with Special Reference to Education (3rd ed.). University of Chicago Press.
  • ENACTUS Brasil. (2022). Relatório Anual 2021–2022.
  • ENACTUS Brasil. (2026). ENEB 2026 – Campeã nacional e representante para a World Cup.
  • Etzkowitz, H., & Zhou, C. (2017). The Triple Helix: University–Industry–Government Innovation and Entrepreneurship. Routledge.
  • Hirschman, A. O. (1958). The Strategy of Economic Development. Yale University Press.
  • Porter, M. E. (1998). Clusters and the New Economics of Competition. Harvard Business Review, 76(6), 77–90.
  • Putnam, R. D. (1993). Making Democracy Work: Civic Traditions in Modern Italy. Princeton University Press.
  • Schultz, T. W. (1961). Investment in Human Capital. American Economic Review, 51(1), 1–17.
  • Schumpeter, J. A. (1982). Teoria do Desenvolvimento Econômico. Abril Cultural. (Obra original publicada em 1911).
  • Sen, A. (2010). Desenvolvimento como Liberdade. Companhia das Letras.
  • Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campus Cornélio Procópio. (2023). Projeto ENACTUS UTFPR Cornélio Procópio é finalista no Prêmio Marqueterie de Comunicação – ENACTUS 25 anos.

✍️ Nota do Blog: Texto autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes. As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

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