🌱 O Brasil não precisa escolher entre o agro e a indústria


 O verdadeiro desafio é agregar inteligência às riquezas que já possuímos.

✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, desenvolvimento regional e sociedade

 

📖 Uma reflexão que nasceu de duas leituras

Recentemente li dois textos que, embora tratassem de assuntos diferentes, despertaram em mim a mesma reflexão.

O primeiro foi o artigo "Agregar valor é hoje outra coisa" , de Celso Ming. O segundo, uma reportagem da Deutsche Welle mostrando que a Coreia do Sul pretende utilizar parte das receitas obtidas com a indústria de semicondutores para criar um "super fundo" voltado ao financiamento da inovação e das tecnologias do futuro.

Embora eu discorde de parte da conclusão do primeiro artigo, reconheço que ambos levantam uma pergunta extremamente importante para o Brasil:

👉 O que realmente significa agregar valor no século XXI?

Essa é uma questão que costumo discutir com meus alunos da UTFPR e que certamente poderia ser debatida em qualquer universidade brasileira.

Minha resposta continua sendo a mesma.

O Brasil não precisa abandonar o agronegócio. Muito menos deixar de exportar commodities.

O que precisamos é incorporar cada vez mais conhecimento, tecnologia e inovação àquilo que já fazemos muito bem.

Na minha visão, o problema nunca foi produzir soja. O problema é quando paramos nela.

 

🌾 O agro não é o vilão. Nunca foi.

Nos últimos anos, tornou-se comum criar falsas escolhas.

  • Agro ou indústria.
  • Commodities ou tecnologia.
  • Campo ou cidade.

Como economista, sempre desconfio dessas respostas simples para problemas complexos.

O agronegócio brasileiro é uma das maiores histórias de sucesso da economia nacional. Somos líderes mundiais na produção de soja, milho, café, carnes, açúcar, celulose e diversos outros produtos. O setor responde por aproximadamente 24% do PIB brasileiro, representa cerca de 50% das exportações e emprega milhões de brasileiros, direta e indiretamente.

Ser favorável ao agro não significa ser contra a indústria.

Assim como defender a industrialização não significa atacar o produtor rural.

Na verdade, os países mais desenvolvidos mostram exatamente o contrário.

Eles integram agricultura, indústria, tecnologia e serviços.

 

📈 Agregar valor continua sendo essencial

Quando estudei Economia, aprendíamos que agregar valor significava transformar matéria-prima em produtos industrializados.

Essa lógica continua válida.

Mas hoje ela já não basta.

No século XXI, agregar valor significa incorporar:

🧠 conhecimento
🤖 inteligência artificial
🧬 biotecnologia
💻 software
⚙️ automação
📡 conectividade
🎯 design
🏷️ marcas
🔬 pesquisa
🌍 serviços especializados

Ou seja: o conhecimento passou a valer tanto quanto a própria matéria-prima. Talvez mais.

 

📊 O Brasil exporta commodities e importa tecnologia

Para tornar essa discussão ainda mais concreta, vale olhar diretamente para os números. Em 2025, o Brasil alcançou um recorde histórico ao exportar um montante total de US$ 348,7 bilhões, impulsionado fortemente por setores estratégicos como o petróleo, que respondeu por US$ 44,6 bilhões desse total, além dos volumes expressivos da soja. Por outro lado, as nossas importações somaram US$ 280,4 bilhões, concentrando, em sua grande maioria, produtos manufaturados de alto valor agregado e densidade tecnológica, tais como eletrônicos, semicondutores, máquinas, medicamentos e veículos.

Setor

Exportação 2025

Importação 2025

Agronegócio

US$ 169,52 bi

-

Petróleo

US$ 44,6 bi

-

Manufaturados

-

89% do total importado

Total

US$ 348,7 bi

US$ 280,4 bi

A balança comercial brasileira encerrou o período com um expressivo superávit de US$ 19,7 bilhões, um resultado que, embora positivo em termos contábeis, escancara uma realidade estrutural: o Brasil continua vendendo commodities e comprando tecnologia. A Coreia do Sul, que mencionamos anteriormente, faz exatamente o oposto ao exportar alta tecnologia e utilizar a riqueza gerada por esse setor para financiar a sua próxima geração de inovação. Enquanto isso, o Brasil, salvo raras e brilhantes exceções como a Embraer, permanece posicionado na ponta de baixo da cadeia global de valor. No fim das contas, essa dinâmica ilustra perfeitamente a diferença conceitual entre o mero crescimento econômico, que significa apenas exportar mais em volume, e o verdadeiro desenvolvimento, que consiste em exportar com mais inteligência e conhecimento agregado.

 

📊 O mesmo recurso. Muito mais riqueza.

Produto

Exportação básica

Agregação de valor

🌱 Soja

Grão

Óleo, farelo, proteína vegetal, biodiesel, alimentos, bioplásticos

Café

Café verde

Café torrado, cápsulas, bebidas premium, marcas globais

🌳 Madeira

Tora

Móveis, pisos, papel especial, design

⛏️ Minério de ferro

Minério bruto

Aços especiais, autopeças, máquinas e equipamentos

🛢️ Petróleo

Óleo cru

Petroquímica, fertilizantes, combustíveis, medicamentos, plásticos técnicos

O recurso natural continua sendo importante. Mas é o conhecimento incorporado que multiplica seu valor econômico.

 

🌱 A Coamo mostra que esse caminho é possível

Sempre utilizo a Coamo como exemplo nas minhas aulas.

Ela nasceu como uma cooperativa agrícola. Poderia limitar-se à comercialização de grãos.

Mas decidiu fazer muito mais.

Investiu em armazenagem, logística, indústrias, óleos vegetais, farinhas, margarinas, exportação, tecnologia e gestão.

Cada etapa incorporada à cadeia significou mais empregos, maior renda, mais arrecadação e desenvolvimento para dezenas de municípios.

A Coamo não deixou de produzir commodities. Ela agregou valor às commodities.

Talvez essa seja uma das maiores lições da economia.

Não precisamos abandonar nossas vocações. Precisamos ampliá-las.

 

📊 A Coreia do Sul faz exatamente isso

Enquanto o Brasil discute se devemos exportar commodities ou industrializar mais, a Coreia do Sul dá outro passo.

O governo pretende criar um superfundo nacional utilizando parte da riqueza gerada pela indústria de semicondutores.

O objetivo é simples: financiar ciência, pesquisa, inteligência artificial e novas tecnologias.

Ou seja: utilizar a riqueza de hoje para construir a riqueza de amanhã.

Não por acaso, empresas como Samsung, SK Hynix, Hyundai e LG nasceram dentro de uma estratégia nacional de longo prazo.

O conhecimento tornou-se o principal recurso natural daquele país.

 

🎓 O papel das universidades

É exatamente aqui que as universidades assumem um papel estratégico.

Tenho o privilégio de atuar como professor da UTFPR, instituição que diariamente forma profissionais capazes de transformar conhecimento em inovação. Mas essa missão pertence a centenas de universidades brasileiras.

Instituições como USP, UNICAMP, UFMG, UFPR, UFRGS, UFSC, UFV, UFLA, ITA, UENP, entre tantas outras, produzem pesquisas, formam profissionais altamente qualificados e desenvolvem tecnologias que podem mudar a realidade econômica do país. No Norte Pioneiro, o desafio é fazer com que a força de pesquisa da UTFPR e da UENP se conecte diretamente com as demandas do nosso agro e das nossas cooperativas locais, transformando o cinturão verde regional em um polo de bioeconomia e inovação.

O desafio é fazer esse conhecimento sair dos laboratórios. Chegar às empresas. Transformar-se em produtos, processos, startups, patentes e empregos.

É exatamente isso que Henry Etzkowitz e Marina Ranga chamam de Triple Helix :

🎓 Universidades
🏢 Empresas
🏛️ Governos

Trabalhando juntos para transformar conhecimento em desenvolvimento.

Em sua obra clássica, Etzkowitz ressalta que essa interação é a chave para a inovação em sociedades baseadas no conhecimento, gerando uma "inovação na inovação" através de novos arranjos organizacionais e estruturas híbridas — como as incubadoras e os parques tecnológicos. Para o autor, esse modelo nos ajuda a responder a perguntas fundamentais que estão no centro do debate global e regional:

  • Como podemos ampliar o papel das universidades no desenvolvimento econômico e social regional?
  • Como os governos, em todos os níveis, podem incentivar os cidadãos a assumirem um papel ativo na promoção da inovação?
  • Como as empresas podem colaborar entre si, com as universidades e com o governo para se tornarem mais inovadoras?

🌎 O que dizem os clássicos do desenvolvimento?

Essa discussão está longe de ser nova.

Albert Hirschman defendia que o desenvolvimento ocorre quando determinados setores criam encadeamentos capazes de impulsionar novas atividades econômicas.

François Perroux mostrou que polos dinâmicos irradiam crescimento para outras regiões.

Celso Furtado alertava que crescimento econômico não significa necessariamente desenvolvimento.

Amartya Sen lembrava que o verdadeiro desenvolvimento consiste em ampliar capacidades humanas.

Mais recentemente, Dani Rodrik reforçou que países bem-sucedidos não abandonaram seus recursos naturais. Eles aprenderam a construir conhecimento em torno deles.

Talvez essa seja a principal lição.

Nenhum país se desenvolveu apenas exportando matéria-prima. Mas também nenhum país moderno abriu mão de utilizar inteligentemente seus recursos naturais.

A diferença está em quanto conhecimento cada nação consegue incorporar a eles.

 

🌳 A parábola da semente

Conta-se que dois agricultores receberam exatamente o mesmo saco de sementes.

O primeiro decidiu vendê-las imediatamente. Recebeu dinheiro naquele dia.

O segundo plantou parte delas. Outra parte utilizou para desenvolver novas variedades. Buscou pesquisadores. Aprendeu novas técnicas. Construiu uma pequena agroindústria.

Anos depois, ambos continuavam trabalhando na agricultura.

Mas havia uma enorme diferença.

O primeiro continuava vendendo sementes.

O segundo vendia sementes, alimentos industrializados, tecnologia e conhecimento.

As sementes eram exatamente as mesmas.

O que mudou foi a inteligência colocada sobre elas.

Talvez aconteça exatamente o mesmo com os países.

 

🌱 Reflexão Final

Sempre digo aos meus alunos da UTFPR que o Brasil não precisa escolher entre o agro e a indústria. Muito menos entre commodities e tecnologia.

Precisamos construir pontes entre elas.

Temos terra, água, minérios, biodiversidade, energia. Temos universidades, centros de pesquisa, empresas competentes, pesquisadores reconhecidos internacionalmente.

Nosso desafio não é descobrir novas riquezas. É colocar mais inteligência dentro das riquezas que já possuímos.

A soja continuará sendo importante. O minério continuará sendo importante. O petróleo continuará sendo importante.

Mas aquilo que realmente determinará nossa competitividade será a quantidade de ciência, engenharia, inovação e tecnologia que conseguirmos incorporar a esses recursos.

Porque, no século XXI, agregar valor não significa abandonar nossas riquezas naturais. Significa transformá-las em plataformas de conhecimento.

Talvez seja essa a principal diferença entre países que apenas crescem e aqueles que verdadeiramente se desenvolvem.

 

 

 

📚 Referências:

  • Deutsche Welle. (2026). Coreia do Sul quer alimentar superfundo com receita dos semicondutores.
  • Etzkowitz, H., & Ranga, M. (2013). Triple Helix Systems: An Analytical Framework for Innovation Policy and Practice. Industry and Higher Education, 27(4), 237–262.
  • Furtado, C. (1961). Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura.
  • Hirschman, A. O. (1958). The Strategy of Economic Development. New Haven: Yale University Press.
  • IEDI. (2026). Déficit da indústria de transformação no primeiro trimestre de 2026.
  • Ming, C. (2026). Agregar valor é hoje outra coisa. O Estado de S. Paulo.
  • Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). (2025). Balança comercial brasileira 2025.
  • Perroux, F. (1961). L'Économie du XXe siècle. Paris: PUF.
  • Rodrik, D. (2007). One Economics, Many Recipes. Princeton: Princeton University Press.
  • Sen, A. (1999). Development as Freedom. Oxford: Oxford University Press.
  • Trading Economics. (2026). Brazil Imports by Category.

✍️ Nota do Blog: Texto autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes. As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

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