🚗⚡ O Efeito BYD: O Brasil será apenas mercado consumidor da nova revolução industrial?


 Uma conversa sobre carros, tecnologia e o futuro da indústria brasileira.


Como definem Ranga e Etzkowitz (2013), um sistema de Triple Helix não se resume a ter os três atores no mesmo espaço. Ele exige: capacidades das universidades em gerar e difundir conhecimento; capacidade de absorção e demanda da indústria; e infraestrutura de apoio, incluindo políticas fiscais e de fomento à criação de startups e parcerias.


✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, desenvolvimento regional e sociedade


Recentemente tive uma longa conversa com meu amigo Roberto de Sordi, o famoso MIMO da MGV Car, especialista no mercado de veículos novos e seminovos.

Ele me relatava algo que provavelmente milhares de lojistas, concessionárias e consumidores brasileiros estão observando neste momento.

🚗 Os carros chineses estão chegando com força.

Os veículos elétricos ganham espaço.

💰 Os preços estão pressionando o mercado.

📉 E muita gente já se pergunta o que acontecerá com o valor de revenda dos veículos tradicionais.

Como economista, imediatamente me veio uma pergunta diferente.

O que essa transformação significa para o desenvolvimento do Brasil?

A resposta é mais complexa do que parece.

E vai muito além do setor automotivo.

Estamos falando de indústria.

De tecnologia.

De empregos.

De educação.

De desenvolvimento regional.

E, principalmente, do papel que o Brasil pretende desempenhar na próxima revolução industrial.


🌏 A invasão chinesa é real. Mas não é exatamente uma invasão.

Nas redes sociais aparecem duas narrativas extremas.

De um lado:

"Os chineses vão dominar tudo."

Do outro:

"A BYD é uma bolha."

"Vai quebrar como a Evergrande."

Provavelmente nenhuma das duas interpretações está correta.

O que estamos observando é algo muito mais sofisticado.

A BYD não nasceu como montadora.

Nasceu como fabricante de baterias em 1995.

Enquanto muitas montadoras tradicionais terceirizavam partes importantes da produção, a empresa chinesa construiu um modelo de integração vertical extremamente agressivo.

Ela produz:

🔋 baterias;

💻 componentes eletrônicos;

⚙️ motores;

🖥️ sistemas de controle;

📱 softwares embarcados.

Essa integração reduz custos, aumenta eficiência e gera uma vantagem competitiva difícil de replicar.

Mas existe outro elemento ainda mais importante.

O Estado chinês.


🏛️ Não é empresa contra empresa. É empresa contra Estado.

Durante décadas, a China investiu bilhões de dólares em sua indústria de veículos eletrificados.

Subsídios diretos.

Crédito subsidiado.

Terrenos.

Infraestrutura.

Incentivos fiscais.

Proteção estratégica.

O resultado é que muitas montadoras ocidentais não competem apenas contra outra empresa.

Competem contra um ecossistema nacional inteiro.

Do ponto de vista econômico, trata-se de um exemplo clássico de Capitalismo de Estado.

Uma estratégia em que o governo atua como parceiro ativo do desenvolvimento industrial.

A discussão não é ideológica.

É econômica.

E os números mostram que a estratégia funcionou.

Hoje a China lidera a produção mundial de baterias, veículos elétricos e diversos componentes estratégicos para a nova economia.


🌍 A corrida global já começou

Embora a BYD seja hoje o símbolo mais visível dessa transformação, ela está longe de ser a única protagonista.

A eletrificação da mobilidade tornou-se uma estratégia nacional em diversos países.

Na China, além da BYD, destacam-se empresas como:

🚗 NIO

🚗 XPeng

🚗 Geely

🚗 SAIC

🚗 GAC

Nos Estados Unidos, a Tesla liderou a popularização dos veículos elétricos e obrigou as montadoras tradicionais a reagirem.

Na Europa, grupos como Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz, Renault e Stellantis investem bilhões de euros na transição energética.

No Japão, Toyota, Nissan e Honda aceleram investimentos em eletrificação e hidrogênio.

Na Coreia do Sul, Hyundai e Kia avançam rapidamente em mobilidade inteligente.

Ou seja:

não estamos diante de uma disputa entre BYD e as demais montadoras.

Estamos diante da maior transformação da indústria automotiva desde a invenção do motor a combustão.


- O caso da Noruega

Talvez o exemplo mais impressionante seja o da Noruega.

Por meio de incentivos fiscais, investimentos em infraestrutura de recarga e políticas públicas consistentes, o país transformou completamente seu mercado automotivo.

Mais de 90% dos veículos novos vendidos já são elétricos.

O interessante é que a Noruega não possui uma grande indústria automobilística própria.

Seu objetivo principal foi ambiental e energético.

O caso mostra que a adoção tecnológica pode ser extremamente rápida quando governo, empresas e consumidores caminham na mesma direção.


- O desafio da Alemanha

A Alemanha enfrenta uma situação diferente.

Berço de gigantes como Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz, o país percebeu que a eletrificação ameaça parte das vantagens competitivas construídas ao longo de mais de um século.

Motores elétricos possuem menos componentes.

Exigem menos manutenção.

E reduzem a importância de diversas competências tradicionais da engenharia mecânica.

Por isso, os alemães passaram a investir pesadamente em:

🔋 baterias;

💻 software embarcado;

🤖 automação;

🧠 inteligência artificial.

O objetivo não é apenas fabricar carros elétricos.

É manter a liderança tecnológica.


- O exemplo da Coreia do Sul

Outro caso interessante é a Coreia do Sul.

Hyundai e Kia compreenderam cedo que a competição futura não seria apenas por veículos.

Seria por tecnologia.

Hoje os investimentos sul-coreanos envolvem:

🔋 baterias;

🚘 mobilidade inteligente;

🤖 robótica;

🧠 inteligência artificial;

🌐 conectividade veicular.

Mais uma vez, a lição é clara.

O valor não está apenas no produto final.

Está no conhecimento que o produz.


📚 A história está se repetindo

Curiosamente, o Brasil já viveu algo semelhante.

Quando observamos a implantação da indústria automobilística brasileira durante o governo de Juscelino Kubitschek, percebemos um processo parecido.

Volkswagen.

Ford.

General Motors.

Mercedes-Benz.

Todas chegaram inicialmente importando componentes e montando veículos localmente.

O famoso modelo SKD e CKD.

A diferença é que o governo brasileiro exigiu níveis crescentes de nacionalização.

Peças nacionais.

Fornecedores nacionais.

Engenharia nacional.

Empregos nacionais.

Foi assim que nasceu boa parte do parque de autopeças brasileiro.

Foi assim que cidades como São Bernardo do Campo se transformaram em polos industriais.


⚙️ A diferença que preocupa

Existe, porém, uma diferença importante.

Talvez a mais importante de todas.

No século XX o Brasil importava tecnologia para aprender a produzi-la.

Hoje existe o risco de apenas importar produtos prontos.

A bateria.

O software.

Os semicondutores.

Os algoritmos.

A inteligência do veículo.

Tudo permanece concentrado na matriz.

E isso limita aquilo que os economistas chamam de transbordamentos tecnológicos.

Albert Hirschman explicava que o desenvolvimento ocorre quando um investimento gera encadeamentos para trás e para frente na economia.

Mais fornecedores.

Mais empresas.

Mais conhecimento.

Mais inovação.

Mais empregos.

A pergunta central é simples:

Os veículos elétricos gerarão esses encadeamentos produtivos no Brasil?

Ou apenas substituirão uma cadeia produtiva já existente?


🏭 O paradoxo da destruição criativa

Joseph Schumpeter chamou esse processo de destruição criativa.

Novas tecnologias substituem tecnologias antigas.

Isso é natural.

E normalmente positivo.

O problema surge quando a destruição acontece mais rapidamente do que a criação.

O setor bancário automatizou milhões de operações.

Mas criou novas carreiras.

O agronegócio mecanizou o campo.

Mas elevou a produtividade e gerou novas ocupações.

A dúvida é se a transição para os veículos elétricos produzirá o mesmo efeito.

Uma fábrica tradicional movimenta:

🔩 metalurgia;

⚙️ usinagem;

🔧 manutenção mecânica;

🏭 autopeças;

🚚 logística;

📐 engenharia de processos.

Grande parte dessas atividades tende a diminuir na eletrificação.

Se não houver compensação através de novos investimentos tecnológicos, podemos perder empregos industriais de qualidade sem criar alternativas equivalentes.


🌎 O olhar do desenvolvimento regional

Aqui entra uma reflexão importante.

François Perroux argumentava que o desenvolvimento não ocorre de forma homogênea.

Ele surge a partir de polos dinâmicos capazes de irradiar crescimento para outras atividades econômicas.

A pergunta é simples:

O Brasil será apenas consumidor dessa revolução?

Ou será participante dela?

Porque existe uma enorme diferença entre vender carros produzidos em outro país e produzir tecnologia dentro do território nacional.

Celso Furtado alertava que o subdesenvolvimento não é apenas uma questão de renda.

É também uma questão de dependência tecnológica.

Uma nação que apenas consome inovação produzida em outros lugares dificilmente alcança autonomia econômica de longo prazo.


🎓 Triple Helix: uma oportunidade para o Brasil

Ao estudar parques tecnológicos no Brasil, Portugal e Espanha durante meu doutoramento, observei que os casos mais bem-sucedidos possuem uma característica comum:

🤝 cooperação.

A Triple Helix, desenvolvida por Henry Etzkowitz e aprofundada por Marina Ranga, demonstra que a inovação surge da interação entre:

🎓 universidades;

🏢 empresas;

🏛️ governo.

Talvez o desafio brasileiro não seja impedir a chegada dos veículos chineses.

Isso seria impossível.

O verdadeiro desafio é transformar essa chegada em oportunidade.

Centros de pesquisa.

Laboratórios de baterias.

Desenvolvimento de softwares.

Projetos de mobilidade inteligente.

Parcerias universitárias.

Formação de engenheiros.

Produção local de componentes.

Transferência tecnológica.

A questão central não é importar carros.

É importar conhecimento e desenvolver capacidade própria.


✈️ O exemplo que deu certo

Existe um caso brasileiro que merece atenção.

A Embraer.

E mais recentemente o projeto dos caças Gripen.

Ao negociar a aquisição das aeronaves suecas, o Brasil não comprou apenas equipamentos.

Negociou treinamento.

Transferência de tecnologia.

Participação de engenheiros brasileiros.

Compartilhamento de conhecimento.

Desenvolvimento conjunto.

O resultado foi a ampliação das capacidades nacionais.

Talvez essa lógica possa inspirar outros setores.


- O que deveria preocupar o Brasil?

Não é a chegada dos chineses.

Concorrência faz parte da economia de mercado.

O verdadeiro risco é outro.

Transformar o país apenas em um grande mercado consumidor.

Se o Brasil apenas comprar tecnologia, continuará dependente.

Se aprender a produzi-la, poderá transformar essa transição em oportunidade histórica.

A diferença parece pequena.

Mas é exatamente ela que separa países que criam riqueza daqueles que apenas a consomem.


🎓🚗 A parábola da oficina e da sala de aula

Conta-se que existiam duas cidades vizinhas.

Na primeira havia uma grande oficina mecânica.

Ali trabalhavam torneiros, soldadores, eletricistas, mecânicos, projetistas e fornecedores de peças.

A economia local girava em torno daquele conhecimento acumulado ao longo de décadas.

Na segunda cidade chegaram carros modernos.

Elétricos.

Conectados.

Cheios de sensores, baterias, softwares e inteligência artificial.

Os consumidores ficaram encantados.

Os carros eram mais silenciosos.

Mais eficientes.

Mais tecnológicos.

E, muitas vezes, mais baratos.

Com o passar dos anos, a oficina da primeira cidade começou a perder movimento.

Alguns profissionais se aposentaram.

Outros fecharam as portas.

Muitos jovens deixaram de aprender aqueles ofícios.

Até que um professor fez uma pergunta aparentemente simples:

— Estamos formando profissionais para o mercado que está desaparecendo ou para o mercado que está surgindo?

Houve silêncio.

Porque a pergunta não era apenas sobre carros.

Era sobre educação.

Era sobre tecnologia.

Era sobre desenvolvimento.

Era sobre o futuro.

Naquele momento perceberam algo importante.

O problema nunca foi a chegada da nova tecnologia.

O problema era continuar ensinando, produzindo e planejando como se ela não existisse.

Foi então que escolas, universidades, empresas e governo começaram a trabalhar juntos.

Criaram laboratórios.

Projetos de pesquisa.

Programas de inovação.

Parcerias empresariais.

Novas formações.

Novas competências.

Novas oportunidades.

E pouco a pouco aquela cidade deixou de ser apenas consumidora da tecnologia produzida por outros.

Passou a participar da sua construção.


🌱 Reflexão Final

Quando terminei minha conversa com Roberto de Sordi, percebi que estávamos falando de muito mais do que carros.

Estávamos falando de empregos.

De conhecimento.

De inovação.

De competitividade.

De desenvolvimento regional.

De futuro.

Os veículos elétricos vieram para ficar.

A concorrência chinesa veio para ficar.

A transição tecnológica parece inevitável.

A questão não é impedir essa transformação.

A verdadeira questão é outra.

Se Noruega, Alemanha, Coreia do Sul, China e Estados Unidos estão preparando seus jovens para a mobilidade do futuro, será que nós também estamos preparando os nossos?

O Brasil será apenas um mercado consumidor dessa nova revolução industrial?

Ou será capaz de formar engenheiros, pesquisadores, programadores, técnicos e empreendedores capazes de participar dela?

Em cidades como Cornélio Procópio, que possuem a UTFPR, a UENP, o Sistema S, empresas inovadoras, incubadoras e um Parque Científico e Tecnológico em construção, essa pergunta ganha uma dimensão ainda maior.

Como vimos na definição de Ranga e Etzkowitz no início deste texto, a verdadeira Triple Helix exige capacidade de absorção da indústria local. Não basta o conhecimento estar na universidade; as empresas da nossa região precisam demandar essa tecnologia e o poder público precisa dar o suporte fiscal.

Porque o futuro não será decidido apenas nas concessionárias.

Nem apenas nas fábricas.

O futuro será decidido também nas salas de aula, nos laboratórios e nos ambientes de inovação que estamos construindo hoje.

Como ensinava Celso Furtado:

"O desenvolvimento não é apenas a modernização dos padrões de consumo, mas a ampliação da capacidade criativa de uma sociedade."

Talvez esse seja o verdadeiro debate escondido atrás do chamado "efeito BYD".


📌 Economia para Todos na Real

Este texto não pretende encerrar o debate, mas contribuir para ele. As reflexões apresentadas resultam da interpretação do autor sobre fatos econômicos, evidências históricas, pesquisas e experiências profissionais. O objetivo é estimular o pensamento crítico sobre os desafios do desenvolvimento brasileiro em um mundo cada vez mais tecnológico e competitivo.



📚 Referências

  • ETZKOWITZ, H. The Triple Helix: University–Industry–Government Innovation in Action. Routledge, 2008.
  • FURTADO, C. Desenvolvimento e Subdesenvolvimento. Fundo de Cultura, 1961.
  • FURTADO, C. O Mito do Desenvolvimento Econômico. Paz e Terra, 1974.
  • HIRSCHMAN, A. O. The Strategy of Economic Development. Yale University Press, 1958.
  • PERROUX, F. A Economia do Século XX. Herder, 1967.
  • RANGA, M.; ETZKOWITZ, H. Triple Helix Systems: An Analytical Framework for Innovation Policy and Practice. Industry and Higher Education, 2013.
  • SCHUMPETER, J. A. Capitalism, Socialism and Democracy. Harper & Brothers, 1942.

 

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