🧠 "Professor… eu posso estudar aqui mesmo?" em Cornélio Procópio.


Após comemorações merecidas da UENP, seguindo em frente...


O dia em que entendi talvez o maior desafio — e a maior oportunidade — de Cornélio Procópio

✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, desenvolvimento regional e sociedade


Há alguns dias, durante uma visita a uma escola pública de nossa cidade para um evento, um aluno me fez uma pergunta simples.

Mas daquelas que permanecem na cabeça por muito tempo.

— Professor… eu posso estudar lá mesmo? Na UTFPR?

Confesso: a pergunta me desarmou.

Porque parecia sobre vestibular. Mas era muito maior do que isso.

Era sobre pertencimento.
Sobre autoestima coletiva.
Sobre horizonte.

Sobre o quanto talvez nossa própria população ainda não tenha consciência do patrimônio educacional, científico e humano que existe aqui.

E naquele instante me veio uma reflexão difícil:

talvez o maior desafio de Cornélio Procópio hoje não seja falta de potencial. Seja falta de percepção do próprio potencial.

Porque pensemos friamente.

Quantas cidades médias brasileiras possuem simultaneamente:

uma universidade federal
uma universidade estadual
um curso de Medicina começando
incubadoras e ambiente de inovação
possibilidade concreta de integração tecnológica e regional

Pouquíssimas.

E ainda assim, muitos jovens olham para isso como algo distante. Como se não fosse para eles.

Isso deveria nos preocupar. Muito.


📊 Uma cidade rica em ativos… mas ainda pobre em consciência

Economistas do desenvolvimento sempre defenderam que riqueza territorial não é apenas dinheiro.

É capacidade.
É conhecimento.
É articulação.

Celso Furtado dizia:

"Desenvolvimento é invenção de futuro."

E talvez a pergunta mais incômoda seja:

👉 estamos inventando nosso futuro… ou apenas administrando o presente?

Porque ativos nós temos. E muitos.


📊 Onde estamos hoje? (Pirâmide salarial × Pirâmide de Maslow)

Faixa

Renda familiar mensal

Situação típica

Nível predominante em Maslow

Classe A

acima de R$ 26 mil

alta renda

Autorrealização (realizar potencial, propósito)

Classe B

R 26 mil

média alta

Estima/Status (reconhecimento, conquistas)

Classe C

R 10 mil

classe média

Pertencimento/Afeto (família, laços sociais)

Classe D

R 4 mil

vulnerável

Segurança (moradia, saúde, emprego)

Classe E

abaixo de R$ 2 mil

alta vulnerabilidade

Sobrevivência (alimentação, abrigo, sono)

📍 O salário médio formal em Cornélio Procópio gira em torno de R$ 2.800 — ou seja, a maior parte da população está na transição entre sobrevivência e segurança, com pouca margem para pertencimento, status ou autorrealização.

 

Isso coloca grande parte da população exatamente na transição entre as classes D e C.

E aqui surge uma pergunta importante:

👉 um território com dois grandes ativos universitários já está conseguindo puxar sua complexidade econômica para cima?

Ou ainda estamos subutilizando aquilo que possuímos...

"Antes de querer que um território inove, é preciso dimensionar: quantas pessoas nele já têm condições de pensar em autorrealização?"


📍 Pato Branco entendeu isso

Pato Branco não se transformou em referência tecnológica apenas porque possui universidade.

Transformou-se porque passou a acreditar no que a universidade poderia gerar.

Hoje a cidade possui centenas de empresas ligadas ao setor tecnológico, dezenas de startups estruturadas e um ecossistema que responde por parcela importante do PIB local .

Mas isso começou antes dos números.

Começou quando a cidade deixou de ver universidade como prédio… e passou a vê-la como motor econômico.

Virou identidade territorial.
Virou projeto coletivo.


Santa Rita do Sapucaí entendeu ainda antes

Com pouco mais de 40 mil habitantes, Santa Rita do Sapucaí (MG) tornou-se um dos maiores polos tecnológicos do país.

O chamado Vale da Eletrônica reúne cerca de 150 a 160 empresas de base tecnológica, três incubadoras, dezenas de laboratórios de P&D e faturamento superior a R$ 3 bilhões anuais.

Mais impressionante do que os números é a lógica construída.

A cidade aprendeu a enxergar valor no conhecimento.
O território criou cultura empreendedora.

🦷 E o prefeito dentista que criou o Vale da Eletrônica

A história de Santa Rita do Sapucaí não começou com grandes empresários ou investidores milionários. Começou com um dentista visionário chamado Antônio Tavares Pereira Lima.

Eleito vereador na década de 1960, Tavares Lima — carinhosamente chamado de "prefeito dentista" — liderou o movimento que trouxe para a cidade uma escola técnica de eletrônica, que mais tarde se tornaria o famoso Inatel (Instituto Nacional de Telecomunicações).

Na época, poucos acreditavam que uma pequena cidade do interior mineiro pudesse formar engenheiros e técnicos em eletrônica. Mas Tavares Lima insistiu. Sua aposta era simples e ousada ao mesmo tempo:

👉 "Se trouxermos conhecimento para cá, as empresas virão depois."

E foi exatamente o que aconteceu. As empresas de tecnologia nasceram ao redor da escola. O Inatel formou mão de obra qualificada; os ex-alunos abriram suas próprias empresas; e o território criou uma cultura de inovação que dura até hoje.

Quando uma cidade aprende isso… ela muda de patamar.

A lição de Santa Rita é clara: não espere o desenvolvimento chegar. Plante as sementes certas no lugar certo — e cultive com paciência.


📉 E aqui talvez esteja nossa reflexão mais delicada

Como bem recorda o Prof. Dr. Roberto Bondarik, historiador, professor da UTFPR e membro da ALACOOP (Academia de Letras, Artes e Ciências de Cornélio Procópio), o pioneirismo tecnológico da nossa região não é um acidente, mas um legado. Bondarik destaca que o "Vale da Eletrônica" e os polos que deram certo, como o nosso, fundamentam-se em uma identidade de resistência e visão, onde o conhecimento técnico foi a ferramenta para fixar o homem ao território através da inteligência.

Quando jovens não acreditam plenamente nas oportunidades locais
quando o ensino superior ainda parece distante para parte da população…
quando qualificação não pressiona o mercado regional

as estruturas salariais menores acabam se acomodando.

Isso não é acusação. É dinâmica econômica.

Mercados pouco tensionados por capital humano sofisticado tendem a evoluir mais lentamente em renda e complexidade.

E isso vale para empresas, governos e também para a própria sociedade.


🔄 Triple Helix: quando universidade, governo e empresas trabalham juntos

Henry Etzkowitz, criador do conceito de Triple Helix, defendia que desenvolvimento regional nasce da interação entre:

🎓 universidades
🏛️ governo
🏭 empresas

Mas isso só funciona quando as três hélices giram juntas.

O pesquisador português Luis Farinha (IP Castelo Branco), coordenador da rede Regional Helix, reforça que o desenvolvimento não acontece em ilhas. Para ele, o segredo das regiões que prosperam está na capacidade de criar uma "hélice regional" onde a inovação é aberta e colaborativa, permitindo que pequenas cidades se conectem a redes globais de valor.

E aqui talvez exista uma oportunidade histórica.

Imagine:

🦾 Engenharia Mecânica da UTFPR desenvolvendo próteses com novos materiais
🖥️ Computação, Automação e Controle criando sensores e tecnologias médicas
🩺 Medicina e Biologia da UENP validando aplicações clínicas
📊 Economia, Contábeis e Administração estudando custos, gestão e viabilidade

Isso não é ficção. É exatamente o que ecossistemas modernos fazem.

E talvez nunca tenha feito tanto sentido quanto agora.

Marina Ranga, uma das maiores autoridades mundiais em Triple Helix, complementa essa visão ao afirmar que as universidades modernas precisam atuar como "orquestradoras de ecossistemas", indo além do ensino para se tornarem o motor da resiliência econômica regional.


🏥 Medicina: oportunidade histórica… e também desafio

A chegada do curso de Medicina da UENP representa uma das maiores transformações regionais das últimas décadas.

Ela pode gerar:

novos serviços de saúde
atração de profissionais especializados
dinamismo imobiliário
eventos científicos
novas clínicas e laboratórios
maior circulação econômica

Mas há um desafio importante.

Uma cidade não se transforma apenas criando um curso. Precisa integrar esse curso ao território.

Caso contrário, corre o risco de ter um grande ativo funcionando isoladamente.

A grande pergunta talvez seja:

👉 Medicina será apenas um curso… ou o embrião de um novo ecossistema regional de inovação em saúde?


🏗️ E o Parque Científico e Tecnológico?

Aqui talvez esteja uma das discussões mais importantes para o futuro regional.

Distritos industriais tradicionais possuem sua relevância. Geram emprego. Movimentam produção. Ajudam a economia.

Mas um Parque Científico e Tecnológico possui outra lógica.

Seu objetivo não é apenas ocupar terrenos. É gerar densidade tecnológica.

É criar empresas intensivas em conhecimento.
É conectar universidade, inovação e mercado.

Experiências nos Institutos Politécnicos de Leiria, em Portugal, compartilhadas pelos pesquisadores Luis Serrano e Marcelo Gaspar, demonstram que parques tecnológicos de sucesso são aqueles que priorizam a "transferência de tecnologia ágil". Eles defendem que o parque deve ser um laboratório vivo, onde o erro é parte do processo de aprendizado industrial, algo vital para não transformarmos nossos ativos apenas em galpões de ocupação física.

Transformar um parque tecnológico em algo predominantemente industrial pode trazer retorno mais rápido no curto prazo.

Mas existe um risco:

👉 trocar uma estratégia de transformação tecnológica por uma lógica apenas de ocupação física.

E isso merece reflexão.

Porque cidades que conseguiram dar salto econômico sustentado — como Pato Branco e Santa Rita do Sapucaí — não cresceram apenas pela indústria convencional.

Cresceram porque conseguiram transformar conhecimento em ecossistema.


📌 O que Cornélio Procópio poderia fazer na prática?

A mudança de cultura não nasce de uma palestra isolada, de um evento bonito ou de uma campanha passageira.

Eventos são importantes. Inspiram. Mobilizam.

Mas, sozinhos, não mudam uma cultura.

Cidades que deram certo avançaram porque criaram continuidade institucional. Criaram rotina. Criaram visão coletiva.

Agente

Econômico

O que pode fazer concretamente

Exemplos reais

👥 Pessoas e famílias

Incentivar e engajar os jovens a conhecer universidades, bolsas, estágios e cursos técnicos

Santa Rita transformou tecnologia em identidade local

🏛️ Prefeitura

Criar política permanente de cidade do conhecimento e inovação - estratégias de médio e longo prazos

Pato Branco integrou inovação ao planejamento urbano

🎓 Universidades

Aproximar escolas, empresas e comunidade - eventos na comunidade e não só dentro dos muros

Ecossistemas maduros conectam universidade ao território desde cedo

🏫 Escolas

Trabalhar orientação profissional contínua - empreendedorismo pessoal e profissional desde a infância

Cidades educadoras fortalecem aspiração desde a base

💼 Empresas

Abrir estágios, desafios tecnológicos e inovação conjunta - capacitar de forma contínua os colaboradores

Empresas tecnológicas cresceram conectadas às universidades

🤝 Sistema S

Criar trilhas contínuas de qualificação e empreendedorismo

Senai, Senac, Sesc e Sebrae são pilares em vários polos tecnológicos

🧩 Sociedade civil

Defender continuidade institucional e visão de longo prazo - participação para além das ações sociais de ajuda

Ecossistemas fortes dependem de coordenação coletiva


A lógica é simples:

👉 uma palestra informa.
👉 um evento mobiliza.
👉 mas uma estratégia contínua transforma.


📖 A parábola do ouro invisível

Uma vila tinha ouro sob o solo.

Mas todos cresceram ouvindo que eram pobres.

Então ninguém cavava.

Até que um jovem perguntou:

"E se a riqueza estiver aqui?"

Talvez a pergunta daquele aluno tenha sido exatamente isso.

Uma pergunta simples… que revela um problema profundo.


💡 O verdadeiro desenvolvimento começa quando a população acredita

Nenhuma cidade se transforma apenas com prédios. Ou obras. Ou discursos.

O professor Marcio Jacometti, estudioso das dinâmicas institucionais, observa que para um sistema de inovação florescer, é preciso que as instituições (formais e informais) estejam alinhadas. Não basta ter leis de incentivo; é necessário que a cultura local "internalize" a inovação como o único caminho para a sobrevivência a longo prazo.

Transformação começa quando:

jovens acreditam
famílias percebem oportunidades
empresas entendem o valor do conhecimento
universidades se conectam ao território
poder público pensa longo prazo

Albert Hirschman chamava isso de encadeamentos do desenvolvimento.

Um ativo gera outro.
Uma oportunidade cria outras.
Uma universidade movimenta escolas, empresas, serviços, inovação, renda e futuro.

Mas isso exige coordenação. E exige visão.

Talvez o verdadeiro atraso não esteja na falta de recursos. Esteja na dificuldade de enxergar o valor do que já possuímos.


🎯 A pergunta que fica

Será que Cornélio Procópio ainda se vê apenas como uma cidade do interior… ou já começou a perceber que possui ativos que poucas regiões brasileiras conseguiram construir?

Porque talvez nosso maior desafio hoje não seja criar oportunidades.

Seja convencer nossa própria população de que elas já existem.

E talvez tudo comece quando um aluno de escola pública descobrir que sim: ele pode estudar aqui.

E ajudar a transformar a cidade também.


Uma cidade só transforma conhecimento em riqueza quando primeiro transforma conhecimento em consciência.






📚 Referências:

  • Furtado, C. Formação Econômica do Brasil.
  • Hirschman, A. O. The Strategy of Economic Development.
  • Etzkowitz, H. The Triple Helix.
  • ANPROTEC. Indicadores de Parques Tecnológicos no Brasil.
  • Connected Smart Cities Ranking 2025 .
  • Inatel. História do Vale da Eletrônica – Santa Rita do Sapucaí.
  • BONDARIK, R. História e Tecnologia: O impacto das escolas técnicas na formação de polos regionais. (Referência à produção historiográfica e contribuições à Academia de Letras de Cornélio Procópio).

  • ETZKOWITZ, H.; LEYDESDORFF, L. The Triple Helix -- University-Industry-Government Relations: A Laboratory for Knowledge Based Economic Development. EASST Review.

  • FARINHA, L.; FERREIRA, J. J. Tripla Hélice e Ecossistemas de Inovação: O papel das redes regionais no desenvolvimento sustentável. Regional Helix Conference Proceedings.

  • FURTADO, C. Formação Econômica do Brasil. Ed. Companhia das Letras.

  • GASPAR, M.; SERRANO, L. Transferência de Tecnologia e o Papel dos Institutos Politécnicos no Desenvolvimento das Regiões: O caso de Leiria. (Estudos sobre interface universidade-empresa em Portugal).

  • HIRSCHMAN, A. O. The Strategy of Economic Development. Yale University Press.

  • JACOMETTI, M.; GONÇALVES, S. A.; CASTRO, M. Institutional Work e Governança em Arranjos Produtivos Locais: Uma análise do desenvolvimento regional. Revista de Administração Pública.

  • RANGA, M.; ETZKOWITZ, H. Triple Helix Systems: An Analytical Framework for Innovation Policy and Practice in the Knowledge Society. Industry and Higher Education.


✍️ Nota do Blog: Texto autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de dados públicos. As reflexões e homenagens são de inteira responsabilidade do autor.

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