🩺 Medicina não muda apenas alunos. Pode mudar a lógica econômica de uma região.
O que Ribeirão Preto, a UFSCar e o Vale da Eletrônica ensinam — e o que Cornélio Procópio ainda pode escolher ser
✍️ Autor: Prof.
Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia,
desenvolvimento regional, ciência e inovação
💬 "A
inspiração para este texto — para além das leituras e reflexões do blog — veio
de uma provocação do professor Felipe Haddad Manfio, da UENP, em uma conversa
informal. Ele mencionou Ribeirão Preto, cidade que ambos tivemos a oportunidade
de visitar, e perguntou: 'Será que o que aconteceu lá poderia inspirar algo por
aqui?' Fui buscar os conceitos, os dados, a história. Segue o texto para
reflexão e ação."
Cornélio Procópio vive um daqueles momentos que talvez só
sejam plenamente compreendidos anos depois.
O primeiro processo seletivo do curso de Medicina da UENP já
está em andamento, com previsão de início das aulas no segundo semestre de
2026.
À primeira vista, muita gente enxerga apenas um novo curso
universitário. Outros pensam em vestibular. Alguns imaginam status.
Mas, em economia regional, talvez a pergunta mais importante
seja outra:
👉 o que acontece
quando conhecimento, saúde e território começam a se conectar de forma
contínua?
Essa pergunta ajuda a entender por que algumas cidades mudam
completamente sua trajetória econômica ao longo das décadas.
E talvez o melhor exemplo brasileiro disso esteja em Ribeirão
Preto.
📍 Ribeirão Preto não
nasceu polo médico. Tornou-se.
A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP foi
criada em 1952.
Seu primeiro diretor, Zeferino Vaz, implantou
algo raro para o Brasil da época:
✔ dedicação integral de
professores
✔ forte produção
científica
✔ integração
entre ensino, pesquisa e atendimento clínico
✔ atração
de pesquisadores internacionais
Na prática, criou-se um novo ambiente institucional para
o interior paulista.
Poucos anos depois veio o Hospital das Clínicas. Mas o mais
interessante é que o impacto regional não surgiu apenas por
planejamento estatal direto. Ele emergiu da densidade criada ao
redor da universidade.
Médicos formados permaneceram na cidade. Especialistas
vieram de fora. Clínicas surgiram. Hospitais privados cresceram. Laboratórios
se instalaram. Empresas de equipamentos médicos aproximaram-se da região. A
cidade começou a atrair pacientes de dezenas de municípios.
Sem perceber, Ribeirão Preto passou a criar uma nova centralidade
econômica baseada em saúde, conhecimento e inovação.
Hoje, o complexo HC-FMRP atende cerca de 4 milhões
de pessoas em mais de 90 municípios, oferecendo dezenas de especialidades
médicas e mantendo centenas de projetos científicos ativos.
Como destacou o perfil Update Diário em
publicação recente:
"Nenhuma política pública criou esse polo. Uma
faculdade criou uma gravidade. E a gravidade fez o resto" .
Mas talvez o mais importante não esteja apenas nos números.
Esteja na gravidade econômica criada ao redor deles.
“Herdamos de nossos pioneiros a responsabilidade social,
o compromisso com o ensino e o ideal de continuarmos sendo o centro irradiador
de ciência como dizia Zeferino Vaz.”
— Rui Alberto Ferriani, diretor da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), em discurso de posse
A frase do atual diretor da FMRP não é retórica
institucional — é o reconhecimento de que um polo não se sustenta apenas por
prédios e equipamentos, mas por uma cultura de continuidade,
responsabilidade social e compromisso com a região.
🧠 A teoria institucional
ajuda a explicar isso
Douglass North, Nobel de Economia, defendia que instituições
moldam trajetórias de desenvolvimento.
Uma universidade forte altera expectativas. Muda decisões de
investimento. Atrai talentos. Redesenha o território.
Em outras palavras: instituições fortes criam novos
caminhos possíveis.
E isso é importante porque o impacto econômico raramente
aparece imediatamente. Ele se acumula. Como uma espécie de "gravidade
institucional" .
Em algum momento, pessoas, empresas e investimentos começam
a orbitar aquele núcleo.
Foi isso que aconteceu em Ribeirão Preto.
E talvez seja exatamente isso que Cornélio Procópio precise
compreender agora.
🏥 Medicina não é apenas
um curso. É um setor líder.
Albert Hirschman chamaria isso de "setor
líder" — uma atividade capaz de gerar encadeamentos
econômicos para trás e para frente.
📌 Encadeamentos para trás
(o que alimenta o curso)
O curso de Medicina demanda:
✔ hospitais estruturados
✔ laboratórios
✔ professores especializados
✔ equipamentos de ponta
✔ tecnologia médica
✔ moradia estudantil
✔ alimentação
✔ serviços
urbanos
📌 Encadeamentos para
frente (o que o curso pode gerar)
O curso pode gerar:
✔ clínicas especializadas
✔ residências
médicas
✔ novas especialidades
✔ hospitais privados
✔ pesquisa aplicada
✔ inovação
em saúde
(HealthTechs)
✔ empregos qualificados
✔ atração
regional de pacientes
Uma atividade começa a puxar outras.
Isso é desenvolvimento regional.
🔄 Triple Helix: quando
universidade, governo e empresas trabalham juntos
Henry Etzkowitz chamou isso de Triple
Helix:
🎓 universidade
🏛️ governo
🏭 empresas
atuando de forma integrada .
Mas aqui existe um detalhe importante. A hélice não gira
sozinha. Ela precisa de coordenação institucional. Precisa de
continuidade. Precisa de visão coletiva.
E talvez este seja o ponto mais sensível para Cornélio
Procópio hoje.
🏛️ O que a pesquisa
científica local já demonstra
A percepção institucional sobre o momento histórico vivido
por Cornélio Procópio não é apenas intuitiva — ela já começa a ser documentada
pela pesquisa acadêmica produzida na própria região.
Pesquisadores da UENP e da UTFPR Cornélio Procópio vêm
estudando, sob diferentes perspectivas, os fatores que impulsionam — ou travam
— o desenvolvimento econômico regional.
📚 Pela UENP: o impacto
mensurável da inovação
Um estudo conduzido por pesquisadores da UENP e da
UTFPR, publicado em 2024, avaliou o impacto do Sistema Regional de
Inovação do Norte Pioneiro (SRINP) no desenvolvimento econômico dos
municípios da região . Os resultados são expressivos:
"A participação no SRINP está associada a um aumento
de aproximadamente 23,17% no PIB per capita dos municípios
analisados. Além disso, a qualificação da mão de obra também melhorou
significativamente, evidenciada pelo aumento da proporção de pessoas com ensino
superior completo."
Os autores concluem que a implementação de um sistema
regional de inovação gera impacto positivo contínuo, mesmo diante de desafios
demográficos .
🔧 Pela UTFPR: as
condições institucionais para o desenvolvimento
O professor Márcio Jacometti, doutor em
Administração pela UFPR e docente da UTFPR Cornélio Procópio,
desenvolveu sua tese investigando como instituições, políticas públicas
e arranjos produtivos locais influenciam o desenvolvimento regional .
Seus estudos analisaram especificamente o polo moveleiro de Arapongas —
um APL reconhecido nacionalmente — e buscaram compreender as condições que
explicam o acentuado crescimento econômico da região .
Em artigo publicado na Revista de Administração
Pública (FGV) , Jacometti e seus colaboradores destacam um ponto que
dialoga diretamente com a realidade de Cornélio Procópio:
"O ambiente institucional alterou o ambiente técnico
no sentido de permitir a sustentação do padrão de desenvolvimento observado,
mas as condições ficaram muito aquém da expectativa para a melhoria de
competitividade e benefícios econômicos esperados, tendo em vista limitações
nas relações sociais, frágeis para proporcionar confiança entre os atores
locais e reduzir o isolamento em pequenos grupos e concorrência
individual" .
Traduzindo: ter ativos (universidades, cursos,
infraestrutura) não basta. É preciso coordenação institucional,
confiança entre os atores locais e visão coletiva — exatamente o que a
Triple Helix propõe e o que Ribeirão Preto construiu ao longo de décadas.
🧠 O que isso significa
para Cornélio Procópio
Essas pesquisas mostram duas coisas simultaneamente:
- Que
dar certo é possível — o aumento de 23,17% no PIB per capita dos
municípios com sistema de inovação é evidência concreta
- Que
não acontece sozinho — o desenvolvimento regional sustentado
exige continuidade institucional, confiança entre os atores e
integração entre universidade, governo e empresas
Esse tipo de evidência científica precisa ser mais conhecido
dentro da própria cidade. Porque, como defendia Douglass North,
instituições fortes mudam trajetórias — e a UENP, junto com a UTFPR, já
está produzindo o conhecimento que comprova essa mudança.
🧪 O que realmente
transforma uma região? Conhecimento acumulado.
Talvez exista um erro comum quando pensamos desenvolvimento
regional. Muitas vezes imaginamos que cidades mudam apenas por grandes obras.
Ou por decisões rápidas.
Mas os grandes ciclos de transformação quase sempre nasceram
de algo menos visível:
👉 acumulação de
conhecimento.
O pesquisador brasileiro Edgar Dutra Zanotto, Engenharia de Materiais, da
UFSCar, tornou-se referência internacional ao desenvolver estudos sobre vidros
bioativos capazes de estimular regeneração óssea e evitar amputações
em casos graves — uma tecnologia que "engana" o organismo fazendo-o
acreditar que o material é tecido ósseo.
Não surgiu do nada. Foi resultado de décadas de
pesquisa, laboratórios, formação científica e continuidade institucional.
Esse talvez seja o ponto central: inovação séria
raramente nasce da pressa. Ela nasce da persistência.
⏳ E o alerta de Harari: o perigo
da falta de tempo
Isso conversa diretamente com um alerta importante do
historiador Yuval Noah Harari.
Como destacou recentemente em entrevista à revista Velvet,
Harari argumenta que vivemos uma crise de confiança e de excesso de
imediatismo, numa sociedade cada vez mais acelerada pela tecnologia e pela
inteligência artificial.
Queremos resultados instantâneos. Mas desenvolvimento
regional profundo não funciona no ritmo de vídeos curtos.
Ecossistemas de conhecimento levam anos — às vezes décadas —
para amadurecer.
Ribeirão Preto não virou polo médico em dois anos.
Santa Rita do Sapucaí não se tornou o Vale da Eletrônica por acaso.
Pato Branco não criou seu ecossistema tecnológico da noite para o dia.
Todos esses lugares tiveram algo em comum:
✔ continuidade institucional
✔ valorização
da ciência
✔ integração
entre educação e
território
✔ capacidade de pensar além do próximo
mandato
Talvez a pergunta mais importante para Cornélio Procópio
hoje seja justamente essa:
👉 estamos
preparados para construir algo que amadureça em 10 ou 20 anos… ou continuaremos
buscando apenas resultados imediatos?
🏗️ Parque Científico e
Tecnológico ou apenas expansão industrial?
Aqui surge uma reflexão importante.
Distritos industriais tradicionais possuem sua relevância.
Geram empregos. Movimentam produção. Ajudam a economia.
Mas um Parque Científico e Tecnológico possui outra
lógica.
Seu objetivo não é apenas ocupar terrenos.
É gerar densidade tecnológica. É transformar conhecimento em novos
negócios. É conectar:
✔ universidades
✔ startups
✔ pesquisa
✔ inovação
✔ tecnologia aplicada
✔ capital humano sofisticado
Ribeirão Preto entendeu isso na saúde.
Santa Rita do Sapucaí entendeu isso na eletrônica.
Pato Branco entendeu isso na inovação tecnológica.
Essas cidades não cresceram apenas por ocupação
física. Cresceram porque criaram ecossistemas.
E talvez Cornélio Procópio esteja justamente diante dessa
escolha histórica:
👉 criar apenas expansão
urbana e industrial… ou construir um ambiente regional baseado em
conhecimento, saúde, tecnologia e inovação?
🎓 E a UENP: como
impulsionar os outros cursos "por gravidade"?
Se o modelo de Ribeirão Preto nos ensina algo, é que um
polo de excelência não diminui os demais — ele os potencializa.
O Hospital das Clínicas de Ribeirão não "apagou"
os outros cursos da USP. Pelo contrário: gerou demanda por administradores,
economistas, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, engenheiros
biomédicos, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e tantas outras
áreas.
O mesmo pode acontecer em Cornélio Procópio.
O curso de Medicina pode gerar encadeamentos
naturais com os cursos já existentes (ou que podem vir a existir) na
UENP, na UTFPR e nas demais universidades e faculdades particulares:
|
Curso |
Possível
integração com a Medicina |
|
Administração |
Gestão de clínicas,
hospitais e planos de saúde |
|
Ciências Contábeis |
Custos hospitalares, auditoria
em saúde |
|
Ciências
Econômicas |
Economia da saúde,
avaliação de políticas públicas |
|
Ciências
Biológicas |
Pesquisa básica, fisiopatologia,
biotecnologia |
|
Educação Física |
Reabilitação,
prescrição de exercícios para pacientes |
|
Enfermagem |
Assistência direta, gestão de
cuidados |
|
Farmácia |
Farmácia clínica,
medicamentos, análises clínicas |
|
Fisioterapia |
Reabilitação, terapia intensiva |
|
Nutrição |
Nutrição clínica,
suporte metabólico |
|
Psicologia |
Apoio psicológico a pacientes e
familiares |
|
Serviço Social |
Acompanhamento social
de pacientes |
|
Engenharias |
Desenvolvimento de equipamentos,
próteses, sensores, software médico |
Ou seja: a Medicina pode ser o "setor
líder" que puxa empregabilidade, pesquisa e inovação para praticamente
todos os outros cursos.
Isso não é teoria. É o que aconteceu em Ribeirão Preto
— por gravidade.
📌 O que Cornélio Procópio
poderia fazer agora?
A chegada da Medicina cria uma oportunidade rara. Mas
oportunidades não se realizam automaticamente.
Precisam de coordenação. Precisam de continuidade.
Precisam de visão regional.
|
Mudanças reais surgem quando ações passam a ser contínuas.
Quando instituições aprendem a trabalhar juntas por muitos anos.
Foi assim em Ribeirão Preto.
Foi assim em Santa Rita.
Foi assim em Pato Branco.
📖 A parábola da semente
invisível
Um homem plantou uma árvore pequena numa praça.
Durante anos, quase ninguém percebeu. Ela parecia pequena
demais para mudar alguma coisa.
Mas o tempo passou. As raízes cresceram. Os galhos
avançaram.
E um dia a cidade inteira começou a viver ao redor da sombra
que ela produzia.
Talvez a Medicina seja isso. Hoje vemos apenas o começo.
Mas o verdadeiro impacto talvez esteja justamente no
que ainda não conseguimos enxergar.
🎯 A pergunta que fica
Cornélio Procópio enxergará Medicina apenas como um novo
curso universitário… ou como o início de uma nova lógica de
desenvolvimento regional baseada em conhecimento, saúde e inovação?
Porque algumas instituições não mudam apenas alunos.
Mudam trajetórias econômicas inteiras.
E talvez estejamos assistindo exatamente ao começo
disso.
📚 Referências:
- North, D. C. (1990). Institutions,
Institutional Change and Economic Performance. Cambridge
University Press.
- Hirschman, A. O. (1958). The
Strategy of Economic Development. Yale University Press.
- Etzkowitz, H. (2008). The
Triple Helix: University-Industry-Government Innovation in Action. Routledge.
- Harari, Y. N. (2018). 21
Lessons for the 21st Century. Spiegel & Grau.
- Harari,
Y. N. (2026). Entrevista à revista Velvet (conforme
imagem anexa).
- Pesquisas
de Edgar Dutra Zanotto – UFSCar (Biosilicato e vidros bioativos).
- Hospital
das Clínicas da FMRP-USP – dados institucionais.
- Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto – USP – história e números.
- Brene,
P. R. A., Bernardelli, L. V., Nascimento, K. A. C. do, Oliveira, J. V. G.
de, & Brene, L. F. (2024). Impacto no desenvolvimento econômico
endógeno dos municípios devido a implementação do Sistema Regional de
Inovação do Norte Pioneiro Paranaense (SRINP). REPAE - Revista de
Ensino e Pesquisa em Administração e Engenharia, 10(2), 41–53. https://doi.org/10.51923/repae.v10i2.378
- Jacometti,
M. (2014). Institutional work na conformação do conhecimento
difundido em redes interorganizacionais. Tese de Doutorado,
Universidade Federal do Paraná. http://hdl.handle.net/1884/34682
- Jacometti,
M., Castro, M. de, Gonçalves, S. A., & Costa, M. C. (2016). Análise de
efetividade das políticas públicas de Arranjo Produtivo Local para o
desenvolvimento local a partir da teoria institucional. Revista de
Administração Pública, 50(3), 425–454. https://doi.org/10.1590/0034-7612142712
- Ferriani,
R. A. (2020). Discurso de posse como diretor da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (FMRP-USP). Jornal da USP. https://jornal.fmrp.usp.br/campus-de-ribeirao-preto-empossa-os-novos-diretores-da-fmrp-e-da-ffclrp/
- Update
Diário [@update.diario]. (2026, 15 de maio). A Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto da USP abriu em maio de 1952. [...] Nenhuma
política pública criou esse polo. Uma faculdade criou uma gravidade. [Publicação
no Instagram]. Instagram. https://www.instagram.com/p/DX5A2eGDbsj/
✍️ Nota do Blog: Texto
autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes
acadêmicas. As reflexões, críticas e propostas são de inteira responsabilidade
do autor.

Comentários
Postar um comentário