🧠 O paradoxo de Cornélio Procópio e o risco de pensar pequeno




Mas há um sinal de que isso pode estar mudando, a hélice pode estar destravando... universidade/empresa/governo.


“There is nothing so useless as doing efficiently that which should not be done at all.”
— Peter Drucker


✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, inovação e desenvolvimento regional


Há uma pergunta incômoda que talvez a cidade precise fazer.

Como um município que reúne uma universidade federal (UTFPR) e uma universidade estadual (UENP) — algo presente em cerca de apenas 2,4% dos municípios brasileiros (aproximadamente 150 cidades) — continua convivendo com salário médio em torno de R$ 2.800, baixa densidade tecnológica e dificuldade de transformar conhecimento em riqueza?

Isso não é falta de ativos.

É um problema de conversão.

👉 produzimos conhecimento… mas ainda convertemos pouco disso em desenvolvimento.


🧠 O sábio e o burro: uma parábola necessária

Conta-se que um velho sábio passeava com seu discípulo por uma cidade próspera. Em uma praça movimentada, viram um burro carregado de livros.

O discípulo, impressionado, disse:

— Mestre, aquele burro carrega mais conhecimento do que muitos homens!

O sábio respondeu, sem hesitar:

— Sim, mas ele continuará sendo um burro. Porque carregar conhecimento não é o mesmo que usá-lo.

A cidade que tem universidades, mas não transforma esse conhecimento em riqueza e oportunidades, corre o risco de ser como o burro: carrega o peso da inteligência, mas não colhe os seus frutos.


📊 O privilégio raro que poucas cidades têm

Cornélio Procópio possui um ativo que muitos territórios tentam construir durante décadas:

✔ formação de capital humano
✔ pesquisa acadêmica
✔ incubação de empresas
✔ potencial para inovação
✔ agora, inclusive, curso de Medicina

Pouquíssimas cidades médias do interior brasileiro têm essa base.

E isso deveria gerar efeitos econômicos robustos.

Mas a pergunta permanece:

👉 por que gera tão pouco?

Como diz o ditado popular: “De grão em grão, a galinha enche o papo” . Mas para isso é preciso plantar os grãos — e, mais importante, não comer os grãos antes de virarem galinha.


🧠 Estamos produzindo inteligência… para exportação?

Talvez Cornélio esteja operando como uma espécie de:

🏭 fábrica de inteligência para exportação.

Formamos engenheiros.
Formamos gestores.
Formamos profissionais qualificados.

E depois?

Curitiba. Londrina. Campinas. São Paulo.

A cidade forma. Outros capturam.

Isso tem nome:

👉 vazamento de capital humano.

O físico Albert Einstein já alertava: “Insanity is doing the same thing over and over again and expecting different results.”

Formar talentos para vê-los partir, ano após ano, e esperar que um dia a cidade se desenvolva… talvez seja a nossa própria definição de insanidade.


💰 E quando a renda também vai embora?

Há um problema ainda menos discutido.

Se aproximadamente 60% dos docentes das universidades vivem fora do município, parte relevante da massa salarial de alta renda também é consumida em outros mercados.

Isso significa:

🍽️ menos consumo local
🏠 menos dinamismo imobiliário
🛍️ menos comércio sofisticado
💼 menos multiplicador econômico

Albert Hirschman, que usei em minha dissertação de mestrado na UFPR,já lembrava:

“Desenvolvimento depende dos encadeamentos gerados localmente.”

O economista Thomas Sowell foi ainda mais direto: “The first lesson of economics is scarcity: there is never enough of anything to satisfy all those who want it.”

Recursos são escassos. E quando eles vazam do território, a conta fica mais cara para quem fica.

Mas o que é esse tal de encadeamento na prática?

🔄 Encadeamento para trás

Uma empresa de tecnologia instalada no parque demandaria:
• serviços jurídicos
• contabilidade
• internet e telecom
• alimentação
• fornecedores locais

👉 um negócio cria demanda para vários outros.

🚀 Encadeamento para frente

Uma startup criada por egressos pode gerar:
• consultorias derivadas
• novos aplicativos
• empresas parceiras
• exportação de soluções

👉 um negócio gera outros negócios.

Isso é desenvolvimento.

Se esses encadeamentos não se formam… o território subsidia o crescimento dos outros.

E como diz o ditado: “Aqui se faz, aqui se paga” . Só que, no nosso caso, temos pagado — e os outros é que têm feito.


⚙️ A hélice não está faltando. Está travada.

A Triple Helix, de Henry Etzkowitz, mostra que desenvolvimento surge quando:

🎓 universidade
🏛️ governo
🏭 empresas

formam um sistema integrado.

Se uma hélice gira e as outras patinam… não há tração.

Não falta universidade. Falta sistema.

O provérbio popular captura bem essa ideia: “Dize-me com quem andas, e eu te direi quem és” . As hélices precisam andar juntas. Sozinhas, perdem força.


🎯 Um sinal de que a hélice pode estar destravando

Dito isso, há um movimento recente que merece atenção — e reconhecimento.

O professor Eurico Pedroso — hoje aposentado na UTFPR, que já foi diretor-geral do Campus da UTFPR em Cornélio, diretor de Relações Empresariais e Comunitárias da UTFPR e também assessor da Reitoria da UTFPR — assumiu a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação.

Não é um nome qualquer. É alguém que conhece, na prática, o que significa universidade, inovação e relação com o setor produtivo.

Sua presença na gestão municipal pode indicar algo que faltava:

👉 alinhamento entre a universidade e o governo local.

Não é garantia de nada — mas é um sinal de direção.

E, em cidades que querem se desenvolver, sinal de direção importa.


📍 O caso Pato Branco (os números importam)

Pato Branco não é discurso. É evidência.

Com população próxima de 100 mil habitantes, a cidade alcançou:

📌 3º lugar na região Sul no Ranking Connected Smart Cities 2025, atrás apenas de Florianópolis e Curitiba
📌 15º lugar no ranking nacional, superando Londrina (17º), Maringá (19º) e Chapecó (22º)
📌 1º lugar no Paraná entre cidades de 50 a 100 mil habitantes
📌 Reconhecida com o Selo Connected Smart Cities – Ouro, tanto na categoria Cidades Inteligentes quanto em Ecossistemas de Inovação

O município conta com cerca de 365 empresas de base tecnológica, 22 startups estruturadas e 4 empresas âncoras, com o setor respondendo por aproximadamente 20% do PIB municipal.

Isso não surgiu por acaso.

A cidade escolheu orbitar a inovação.

Enquanto isso, Cornélio ainda convive com um salário médio em torno de R$ 2.800 — e Pato Branco já opera com uma média superior a R$ 3.500, com salários em tecnologia ultrapassando R$ 5.700 mensais.

A diferença de quase 30% na renda média é o que acontece quando um território converte conhecimento em riqueza — e outro não.


⚡ Santa Rita do Sapucaí prova que interior não é desculpa

Com cerca de 40 mil habitantes, Santa Rita do Sapucaí (MG) é um dos casos mais emblemáticos do Brasil:

📌 mais de 150 empresas de base tecnológica
📌 faturamento conjunto superior a R$ 3 bilhões por ano
📌 milhares de empregos qualificados

O Vale da Eletrônica nasceu da conexão entre:

🎓 ensino técnico e superior (Inatel, ETE FMC)
🚀 empreendedorismo local
⚙ ecossistema colaborativo

Não nasceu de loteamento industrial. Nasceu de visão.

A cidade foi reconhecida como uma das dez "cidades-destaque" no Ranking Connected Smart Cities 2025, por sua evolução expressiva.

O ditado chinês se aplica perfeitamente: “Todas as lindas flores e os suculentos frutos do futuro dependem das sementes plantadas hoje” . Santa Rita plantou suas sementes há décadas. Cornélio ainda está decidindo o que plantar.


📖 A parábola do pomar

Dois proprietários herdaram um pomar raro.

Um vendeu a terra em lotes rápidos para obter retorno imediato.
O outro cuidou das árvores e esperou as colheitas.

No primeiro ano, o primeiro parecia mais esperto.
No décimo, o segundo era muito mais rico.

Nem todo retorno rápido é desenvolvimento.
Às vezes é liquidação do futuro.

Como diz o ditado: “Quem tem pressa come cru” . Desenvolvimento exige tempo, paciência e a capacidade de suportar a ansiedade do retorno imediato.


🔬 O que um parque tecnológico faria aqui?

Ali poderiam estar:

💻 software e IA aplicada
⚙ automação e IoT
🌱 AgTechs
🩺 HealthTechs
🔌 eletrônica embarcada
🧪 laboratórios de P&D
🚀 spin-offs acadêmicas

Isso geraria:

✔ empregos qualificados
✔ salários maiores
✔ retenção de talentos
✔ arrecadação sofisticada


🏭 E o que é um distrito industrial?

Outra lógica.

Pode atrair:

🚛 logística
🏗 manufatura tradicional
📦 armazenagem
🔩 operações convencionais

Importante? Sim.

Mas diferente.

👉 uma busca produtividade industrial
👉 outra busca transformação tecnológica

Confundir as duas pode custar caro.


⚠️ Parque tecnológico… ou condomínio industrial?

Parque tecnológico não é galpão. Não é loteamento.

É densidade tecnológica.

Transformá-lo em algo predominantemente industrial pode gerar retorno rápido.

Mas pode também:

👉 rebaixar o futuro.

O risco não é perder terreno.
É perder vocação.

O provérbio alerta: “Não conte com o ovo dentro da galinha” . Contar com um retorno que ainda não foi construído — ou pior, destruir a própria galinha antes de ela botar — é o caminho mais curto para o fracasso.


🏛️ O que a Prefeitura, as empresas e a sociedade poderiam fazer — concretamente?

Crítica sem proposta é ruído.

🏛️ Prefeitura

✔ política municipal de inovação
✔ incentivos fiscais para empresas tecnológicas
✔ governança do parque multissetorial
✔ compras públicas inovadoras (Lei de Inovação)
✔ planejamento urbano voltado à retenção de talentos
✔ apoio à criação de um conselho municipal de ciência e tecnologia

🏭 Empresas

✔ demandar soluções das universidades (P&D contratada)
✔ investir em inovação aberta
✔ apoiar spin-offs acadêmicas
✔ participar da governança do ecossistema

Empresa não deve só participar. Deve inovar junto.

Como diz o provérbio alemão: “Prepara-te para o que quiseres ser” . Não adianta querer crescimento sem se preparar para ele.

🩺🔬 E se a Medicina fortalecer — e não substituir — o Parque?

Aqui pode estar a maior oportunidade.

Imagine projetos para desenvolver:

🦾 próteses com novos materiais (Eng. Mecânica)
⚙ sensores para reabilitação (Eng. Elétrica/Eletrônica)
📱 tecnologias para atenção básica (Computação/Software)
🖥 softwares para gestão em saúde (TADS/Sistemas)

UTFPR:

· Engenharia Mecânica → protótipos e materiais
· Engenharias Elétrica/Eletrônica → sensores e dispositivos
· Computação/Software → plataformas e aplicativos
· Incubadora → spin-offs em HealthTech

UENP:

· Medicina → validação clínica e demandas reais
· Economia e Administração → custos, modelos de negócio e escalabilidade
· Direito, Ciências Sociais → regulação e impactos

👉 isso é Triple Helix em operação.

Talvez a pergunta não seja se o Parque ainda faz sentido com a Medicina.
Mas se nunca fez tanto sentido quanto agora.

🤝 Entidades civis

Associaçao comercial, SEBRAE, SESC, SENAC, SENAI, Escolas técnicas e lideranças sociais e comunitárias podem:

✔ pressionar por continuidade institucional (independente de gestões)
✔ fortalecer governança participativa
✔ ajudar a construir visão de longo prazo
✔ ajudar a construir a noção de pertencimento e de valor para tudo o que é esse privilégio Cornélio Procópio 

Desenvolvimento é coordenação coletiva.


⚖️ A reflexão incômoda

Talvez o maior risco não seja errar.

Seja pensar pequeno.

Querer:

✔ obra em vez de ecossistema
✔ ocupação em vez de densidade
✔ retorno rápido em vez de maturação

Schumpeter chamaria isso de renúncia à destruição criativa.

O ditado popular resume com perfeição: “Quem espera sempre alcança” . Mas esperar não é inércia — é trabalho paciente e contínuo.

Paul Valéry, poeta e filósofo francês, escreveu: “O futuro não é o que está à nossa frente, mas o que está dentro de nós.”

O futuro de Cornélio já está dentro das universidades, dos laboratórios, da incubadora, dos alunos que se formam todos os anos. Só falta a gente decidir tirá-lo de lá.


🎯 A pergunta que fica

Cornélio Procópio quer ser:

👉 um polo que transforma conhecimento em riqueza

ou

👉 um território que forma talentos para enriquecer outras regiões?

Porque são projetos econômicos muito diferentes.

E talvez 2026 esteja cobrando essa escolha.

Como disse o poeta Mario Quintana: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro por aí.”

O encontro entre universidade, governo e empresas — as três hélices — é a arte que precisamos dominar.

Se não aprendermos, a cidade continuará formando talentos… para outros encontrarem.









📚 Referências:

· Drucker, P. F. (1963). Managing for Business Effectiveness. Harvard Business Review.
· Einstein, A. (atribuição amplamente documentada). A definição de insanidade.
· Sowell, T. (2004). Basic Economics. Basic Books.
· Valéry, P. (1931). Tel Quel (carnets).
· Quintana, M. (1999). Da preguiça como método de trabalho. Editora Globo.
· Etzkowitz, H. (2002). The Triple Helix of University-Industry-Government: Implications for Policy and Evaluation.
· Hirschman, A. O. (1958). The Strategy of Economic Development. New Haven: Yale University Press.
· Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper & Brothers.
· Ranking Connected Smart Cities 2025. 11ª edição.
· ANPROTEC. Indicadores de Parques Tecnológicos no Brasil.
· Dados setoriais do Vale da Eletrônica – Santa Rita do Sapucaí (MG).


✍️ Nota do Blog: Texto autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e atualização de dados públicos. As reflexões, críticas e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

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