Quando uma escola fecha, toda a cidade perde: o impacto do fim do Coleginho em Cornélio Procópio
📣O anúncio do fechamento do tradicional Colégio Nossa Senhora do Rosário, carinhosamente conhecido como "Coleginho", trouxe tristeza e apreensão à comunidade de Cornélio Procópio. Por 74 anos, a escola foi muito mais do que um espaço de aprendizado: ela foi parte da história afetiva da cidade, formando gerações que hoje atuam em diversas áreas da sociedade.
💓Minha filha, Beatriz, assim como muitos de seus amigos,
estudou ali, o que torna esse momento ainda mais simbólico. Diversos alunos,
filhos e filhas de famílias de Cornélio Procópio, já foram formados por esta
instituição de ensino e hoje assumem posição de destaque na sociedade...
Porém, além da perda emocional, é preciso analisar os
impactos econômicos, sociais e educacionais que uma decisão como essa pode
provocar em uma cidade de médio porte e polo regional.
Impacto emocional e educacional
O fechamento de uma escola tradicional não é apenas a
interrupção de aulas. É a perda de um espaço de identidade coletiva, onde se
construíram memórias, valores e sonhos.
Esse vazio gera insegurança para famílias, estudantes e funcionários, além de
pressionar outras instituições de ensino que precisarão absorver essa demanda
repentina.
Pesquisas mostram que o fechamento de escolas, especialmente
em comunidades menores, desestrutura a rede educacional e provoca perda de
pertencimento comunitário. Como afirma Andrade (2020), a ausência de
instituições educacionais consolidadas gera desafios que vão além do ensino,
impactando a inclusão social. Economistas também alertam que a ruptura no
sistema educacional afeta desproporcionalmente a participação das mulheres no
mercado de trabalho, sobrecarregadas com a reorganização da rotina familiar.
Impacto econômico e financeiro
Uma escola particular tem papel relevante na economia local:
- Empregos
diretos: professores,
equipe administrativa, limpeza e manutenção.
- Empregos
indiretos: transporte
escolar, cantinas, uniformes, livrarias e fornecedores.
- Comércio
local: famílias
que vinham de cidades vizinhas para estudar consumiam em restaurantes,
lojas e serviços.
A relação entre educação e desenvolvimento econômico é
amplamente reconhecida. Estudos de organismos como o Banco Mundial e o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) frequentemente destacam o efeito
multiplicador do setor educacional na economia local. Se o Coleginho
tinha, por exemplo, 300 alunos, estamos falando da perda potencial de dezenas,
talvez centenas de empregos diretos e indiretos – de professores e
zeladores a donos de lanchonetes e motoristas de van –, além de uma queda
significativa no movimento do comércio local que dependia do consumo diário
dessas famílias. O fechamento de uma escola não é apenas o fim de
aulas; é a falência de um pequeno ecossistema econômico.
Além disso, a arrecadação de impostos municipais pode sofrer
queda, afetando a capacidade de investimento público em outras áreas, como
saúde e infraestrutura.
Exemplos de outras cidades: como a comunidade reagiu
Muitas outras cidades brasileiras e internacionais já
passaram por situações semelhantes e transformaram a crise em oportunidade. A reação
da comunidade, envolvendo lideranças locais e mobilização comunitária,
foi fundamental, como mostram os seguintes exemplos:
- Santa
Rita do Sapucaí (MG):
conhecida hoje como Vale da Eletrônica, a cidade transformou
escolas técnicas antigas em centros de capacitação tecnológica, em um
processo conduzido por empresas, sociedade civil e lideranças políticas
locais (Mantovani, 2006).
- Nova
Petrópolis (RS)
- "Capital Nacional do Cooperativismo": Com aproximadamente 21
mil habitantes, a cidade encontrou no cooperativismo seu caminho para o
desenvolvimento. A mobilização comunitária é tão forte que até os táxis
são cooperativados. É um exemplo de como uma identidade coletiva e um
modelo de gestão compartilhada podem gerar prosperidade e reter talentos
em uma cidade de pequeno porte.
- Videira
(SC) -
"Capital Brasileira da Maçã": Com cerca de 55 mil habitantes, a
cidade se destacou no agronegócio, mas com alto valor agregado e inovação.
A presença de uma universidade (UNOESC) e a forte articulação entre
produtores, cooperativas e prefeitura foram cruciais para o
desenvolvimento de uma cadeia produtiva forte e competitiva.
- Florianópolis
(SC):
antigos prédios escolares foram revitalizados e hoje funcionam como centros
comunitários e de inovação, gerando empregos e fomentando novas
atividades econômicas, sem perder a identidade histórica (Governos
Municipal e Estadual).
- Estados
Unidos e Europa:
em cidades menores, organizações comunitárias, como Rotary Clubs e
conselhos de desenvolvimento local, têm papel central na reorganização do
sistema educacional, atuando como pontes entre famílias, poder público e
empresas (Etzkowitz, 2008).
Esses exemplos mostram que quando diferentes setores
trabalham juntos, é possível transformar perdas em oportunidades. Cada
cidade, porém, precisa encontrar seu próprio caminho, de acordo com sua
realidade e desafios específicos.
“A inovação surge quando universidades, governo e empresas
interagem de forma ativa e híbrida, gerando conhecimento, empreendimentos e
impacto econômico real”
(Etzkowitz & Leydesdorff, 1995, p. 2).
Reflexão para Cornélio Procópio
Assim como Santa Rita do Sapucaí e Florianópolis reagiram em
momentos críticos, Cornélio Procópio tem agora a oportunidade de escrever um
novo capítulo de sua história educacional e inovadora.
Nossa cidade conta com uma vantagem única: a presença
simultânea de universidades públicas, faculdades privadas e centros
tecnológicos, formando uma base sólida para a criação de soluções próprias.
Contudo, para que esse potencial se traduza em resultados
concretos, é fundamental que instituições como o Sistema Regional de
Inovação (SRI) — iniciativa que busca articular universidades, governo e
empresas —, a Prefeitura Municipal, Vereadores, Conselho de Desenvolvimento
Econômico de Cornélio Procópio (CODEP), o Rotary, a Maçonaria,
a OAB, a Associação Comercial e Empresarial de Cornélio Procópio - ACECP
e outras entidades representativas do município assumam o protagonismo desse
processo.
Marina Ranga (2013) lembra que políticas de inovação não
podem se restringir a avanços tecnológicos, mas precisam abordar desafios
sociais e estruturais, construindo soluções que envolvam toda a comunidade.
“As políticas de inovação devem integrar não apenas
tecnologia, mas também dimensões sociais, culturais e econômicas, promovendo
mudanças transformadoras e sustentáveis”
(Ranga & Etzkowitz, 2013, p. 239).
O fechamento do Coleginho não deve ser visto apenas como um
fim, mas como um alerta: ou a cidade se mobiliza para fortalecer seu
ecossistema educacional, ou outros espaços poderão seguir o mesmo caminho.
🧿 Metáfora: O fechamento do Coleginho é como uma
árvore centenária que cai no coração da cidade. Suas raízes permanecem vivas na
memória de quem passou por ali, mas agora cabe à comunidade decidir se vai plantar
novas sementes ou deixar o terreno se transformar em um espaço vazio.
Reflexão final
A história do Coleginho mostra que educação é muito mais
do que salas de aula: é economia, cultura, identidade e futuro. O desafio
agora é transformar esse momento de luto em um ponto de virada, unindo a
comunidade em torno de um novo projeto educacional que garanta a Cornélio
Procópio o lugar de destaque que ela merece como polo regional de conhecimento
e inovação.
Referências
Andrade, F. (2020). Escolas do campo e infraestrutura: aspectos legais. Educação & Sociedade, 41(242), 1-19. https://doi.org/10.1590/ES0101-73302020224269
Etzkowitz,
H. (2008). The Triple Helix: University-Industry-Government
Innovation in Action. Routledge.
Etzkowitz,
H., & Leydesdorff, L. (1995). The Triple Helix:
University-Industry-Government Relations: A Laboratory for Knowledge-Based
Economic Development. EASST Review, 14(1), 14-19. https://doi.org/10.2139/ssrn.2480085
Mantovani,
D. M. N. (2006). Atividades
de incubadoras na região de Ribeirão Preto: efeitos no desenvolvimento local.
Revista de Administração e Inovação, 3(2), 39-57. https://doi.org/10.5773/rai.v3i2.146
Ranga,
M., & Etzkowitz, H. (2013). Triple Helix systems: An
analytical framework for innovation policy and practice in the knowledge
society. Industry
and Higher Education, 27(4), 237-262. https://doi.org/10.5367/ihe.2013.0165
Sebrae. (2024). Retrato do Empreendedorismo no Brasil – GEM 2024-2025. Recuperado de https://www.sebrae.com.br

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