Ferrovias: a solução adormecida para a logística (e o bolso) do brasileiro.
O transporte ferroviário é reconhecido mundialmente como um dos mais eficientes e baratos para o escoamento de cargas em longas distâncias. Países como Estados Unidos, China, Rússia e Índia estruturaram suas economias modernas com base em extensas redes ferroviárias. No Brasil, embora sejamos um país continental, apenas cerca de 20% da carga é transportada por ferrovia — mais de 60% ainda depende das rodovias, mais caras e menos sustentáveis.
Se olharmos para a história, o paradoxo é evidente. No fim do Império, em 1889, o Brasil possuía cerca de 9.500 km de trilhos — um feito notável para a época. Durante a Primeira República e ao longo do século XX, essa rede cresceu, chegando ao ápice nos anos 1960, com aproximadamente 38 mil km de ferrovias em operação. Porém, a partir daí, a política de incentivo à indústria automobilística e ao modal rodoviário, combinada à falta de manutenção e à ausência de um projeto nacional de integração, levou ao abandono e sucateamento da malha ferroviária.
Atualmente, o Brasil possui oficialmente pouco mais de 30 mil km de ferrovias, mas apenas cerca de 20 mil km estão efetivamente em operação, grande parte dedicada a corredores específicos de exportação de grãos e minérios. A malha deixou de servir como rede nacional de integração e tornou-se dependente de trechos pontuais, majoritariamente controlados por concessões privadas. Em contraste, os Estados Unidos contam com mais de 200 mil km de trilhos ativos, e a China investe fortemente na expansão de sua malha, incluindo linhas de alta velocidade e corredores de carga que reduzem o custo do frete e aumentam a competitividade de seus produtos no mercado global.
A lógica é clara: transportar uma tonelada por ferrovia custa, em média, menos da metade do valor gasto por rodovia. Essa diferença impacta diretamente o preço do produto final e, portanto, o bolso do consumidor. Mas enquanto persistirem os interesses de grupos econômicos — como a poderosa indústria automobilística e de autopeças, além das empresas de transporte rodoviário de carga — e a falta de visão de longo prazo, as ferrovias no Brasil continuarão sendo um “gigante adormecido”. Enquanto isso, o cidadão brasileiro paga a conta duas vezes: no preço mais alto dos produtos e na precária infraestrutura rodoviária.
🧿 Metáfora: A economia brasileira já teve trilhos que poderiam ligar o país de ponta a ponta, mas preferiu pavimentar estradas que hoje estão congestionadas e esburacadas. O trem ficou parado na estação, enquanto o caminhão segue rodando caro pelas rodovias.
Para reflexão: Como destaca a IEA, o transporte ferroviário consome até 12 vezes menos energia que veículos privados e emite entre 7 e 11 vezes menos gases, o que também significa menores custos indiretos com saúde. Além disso, estimativas da Comissão Europeia mostram que os custos externos do modal rodoviário são 11 vezes maiores que os ferroviários — considerando acidentes, poluição, ruído e outros impactos não pagos diretamente. Por fim, especialistas canadenses lembram que a ferrovia se torna ainda mais vantajosa com fretes consolidados, menos motoristas e economia de combustível. Ou seja, a escolha pelo modal rodoviário não custou apenas dinheiro: custou vidas, saúde e competitividade.
E você, acredita que deveria haver mais pressão social por investimentos em ferrovias?
✍️ Nota de autoria
Texto escrito pelo autor.
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Referências
Confederação Nacional do Transporte (CNT). (2023). Pesquisa CNT de Ferrovias 2023. Brasília: CNT. Recuperado de https://cnt.org.br/pesquisa-ferrovias-2023
Ministério da Infraestrutura. (2022). Plano Nacional de Logística 2035. Brasília: Governo Federal do Brasil. Recuperado de https://www.gov.br/infraestrutura
World Bank. (2020). Railways for development: Lessons from international experiences. Washington, DC: World Bank. Recuperado de https://www.worldbank.org
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (2023). Séries históricas sobre a extensão ferroviária no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE. Recuperado de https://www.ibge.gov.br
International Energy Agency (IEA). (2021). The Future of Rail – Opportunities for energy and the environment. Paris: IEA. Recuperado de https://www.iea.org/reports/the-future-of-rail
European Commission. (2020). Transport external costs report. Brussels: European Commission. Recuperado de https://transport.ec.europa.eu


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