🚗 A pirâmide do carro zero: consumimos como ricos ou ainda lutamos para sustentar a base?


Do carro de R$ 169 mil ao iPhone parcelado: renda, crédito, desigualdade e uma velha pergunta brasileira sobre o tamanho e a distribuição do "bolo"

✍️ Autor: Prof. Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia, desenvolvimento regional e sociedade

 

Nas últimas semanas, venho escrevendo sobre uma transformação que já chegou às nossas ruas. Primeiro, comparei carros elétricos, híbridos e flex pelo bolso do consumidor. Depois, ampliei a discussão para infraestrutura, empregos, indústria, Petrobras e desenvolvimento econômico.

Mas uma reportagem recente do Jornal do Carro, do Estadão, me fez voltar algumas casas.

Antes de perguntarmos qual carro comprar, talvez exista uma questão mais elementar:

Quem ainda consegue comprar um carro zero no Brasil?

Um levantamento da Bright Consulting, realizado para o Jornal do Carro, calculou que o preço médio de um automóvel novo no país está em aproximadamente R$ 169 mil. Isso corresponde a cerca de 48 meses da renda média brasileira ou 105 salários mínimos. Para quem recebe o mínimo, estamos falando do equivalente a quase nove anos de salário integral, sem gastar um único real com alimentação, moradia, saúde, energia ou qualquer outra necessidade.

É claro que ninguém compra um automóvel dessa maneira. Existem entrada, financiamento, carro usado na troca e renda familiar.

Mas justamente por isso o número é tão provocador.

Ele não mostra quanto tempo alguém efetivamente levará para comprar um carro. Mostra a distância que se abriu entre renda e automóvel novo no Brasil.

 

📊 O carro "popular" deixou de ser popular?

Em 2026, o salário mínimo brasileiro é de R$ 1.621.

Segundo o levantamento da Bright, um automóvel verdadeiramente compatível com a renda média do brasileiro deveria custar aproximadamente R$ 60.000 mil. Mesmo assim, seriam necessários cerca de 17 meses de renda média integral para compra-lo. O problema é que não existe atualmente carro zero nessa faixa. O modelo mais barato considerado no levantamento já ultrapassava R$ 77.000 mil.

A comparação histórica é igualmente interessante. Em 2013, um Fiat Mille zero custava aproximadamente R$ 23.900, cerca de 35 salários mínimos da época. Hoje, o automóvel médio equivale a 105 mínimos. Naturalmente, o carro atual também mudou: ganhou segurança, tecnologia, equipamentos e precisa atender a exigências ambientais que não existiam da mesma maneira. Portanto, não seria correto comparar os dois produtos como se fossem idênticos.

Ainda assim, alguma coisa aconteceu com a acessibilidade.

E a comparação internacional ajuda a perceber a dimensão.

País

Salários mínimos para o carro médio

Ano

Japão

18

2026

Alemanha

19

2026

Paraguai

38

2026

Estados Unidos

40

2026

China

69

2026

Brasil

105

2026

Argentina

136

2026

Fonte: levantamento Bright Consulting divulgado pelo Jornal do Carro.

Portanto, talvez estejamos discutindo o carro do futuro antes de resolver uma questão muito brasileira:

como fazer o presente caber no orçamento?

 

💰 A renda melhorou. Mas isso não encerra a discussão

É importante reconhecer um dado positivo.

rendimento médio do trabalho chegou a R$ 3.560 em 2025, maior valor da série da PNAD Contínua. A renda domiciliar per capita também alcançou recorde.

Mas médias contam apenas parte da história.

Em 2025, os 40% com menores rendimentos recebiam, em média, R$ 663 mensais por pessoa, enquanto os 10% R$ 9.117. Os 10% do topo apropriavam-se de 40,3% de toda a massa de rendimentos domiciliares, mais do que os 70% de menor renda juntos.

É aqui que começamos a enxergar uma verdadeira pirâmide.

E não apenas a pirâmide de renda.

 

🔺 Maslow encontra o consumidor brasileiro

Abraham Maslow apresentou, no século passado, uma conhecida teoria sobre a hierarquia das necessidades humanas.

Em sua formulação, necessidades mais básicas, como alimentação e segurança, precederiam necessidades relacionadas ao pertencimento, reconhecimento e realização. A famosa representação em forma de pirâmide veio posteriormente e simplifica uma teoria bem mais complexa. Portanto, não devemos transformá-la numa tabela rígida de comportamento.

Mas ela continua oferecendo uma boa metáfora para pensar nossa realidade.

Na base econômica da vida estão alimentação, moradia, saúde, transporte e segurança. Mais acima aparecem conforto, lazer, reconhecimento, consumo e realização.

E então surge um fenômeno curioso da sociedade contemporânea:

é possível consumir no topo da pirâmide enquanto ainda lutamos para sustentar a base.

 

📱 Um iPhone não é um extrato bancário

Não faço aqui uma crítica a quem compra um celular caro, uma televisão grande, uma roupa de marca ou um automóvel acima de sua renda.

Cada pessoa sabe de suas prioridades. A Economia não deveria dizer ao cidadão o que ele pode desejar. Mas deveria ajudá-lo a entender quanto custa antecipar esse desejo.

O crédito tornou possível uma transformação extraordinária. Ele permite trazer consumo futuro para o presente.

  • Não tenho R$ 100 mil hoje? Posso dar uma entrada e financiar.
  • Não disponho de R$ 10 ou 20 mil para um smartphone? Posso parcelar.

A tecnologia financeira permite que alguém cuja renda está muito distante daquilo que convencionalmente chamaríamos de riqueza tenha acesso a bens que, visualmente, representam prosperidade.

E é justamente aí que podemos cometer um erro:

Consumo não é necessariamente riqueza.

Uma família pode ter um excelente automóvel na garagem, smartphones modernos, televisores conectados e, simultaneamente, possuir pouca reserva financeira para enfrentar seis meses de desemprego.

A fotografia mostra uma coisa. O fluxo de caixa pode mostrar outra.

 

🔺 Três pirâmides no mesmo país

Talvez possamos pensar no brasileiro vivendo simultaneamente em três pirâmides.

Pirâmide

O que ela revela

Necessidades

O que precisamos para viver com segurança e dignidade

Renda

Quanto efetivamente temos disponível

Consumo

Aquilo que conseguimos acessar, inclusive por meio do crédito

O problema começa quando essas pirâmides deixam de conversar.

Podemos subir rapidamente na pirâmide do consumo por meio do financiamento, enquanto continuamos relativamente próximos da base na pirâmide da segurança econômica.

É por isso que considero perigoso medir riqueza apenas pelo que conseguimos enxergar.

O carro está na garagem. O celular está na mão.

Mas quanto patrimônio existe depois de descontarmos as dívidas?

Essa talvez seja uma fotografia mais fiel da riqueza.

 

📖 José Falero e o Brasil visto pelo salário

Recentemente, no Clube de Leitura da ALACCOP, discutimos José Falero.

Sua literatura é particularmente interessante para um economista porque desloca nosso olhar. Em vez de observar apenas PIB, renda média, produtividade e emprego pelas estatísticas, somos levados a enxergar como o trabalho e o salário são experimentados por quem vive deles.

Na obra de Falero, o mundo do trabalho aparece associado à periferia, à precariedade, aos "bicos", à sub-remuneração e à dificuldade de transformar esforço cotidiano em mobilidade social. A crítica literária já destacou justamente essa dimensão de sua escrita.

Em Os supridores, por exemplo, os protagonistas trabalham em um supermercado e enfrentam uma situação na qual o trabalho formal não lhes parece suficiente para produzir a perspectiva de melhoria de vida que desejam. A própria editora apresenta o romance como uma reflexão sobre exploração e desumanização do trabalho assalariado.

Literatura não substitui estatística. Mas às vezes consegue mostrar aquilo que a média esconde.

E a estatística brasileira ajuda a completar a fotografia.

Se a renda média do trabalho é R$ 3.560 e um automóvel custa R$ 169.000 mil, talvez a pergunta não seja simplesmente por que o trabalhador não consegue comprar o carro.

Talvez devamos perguntar:

qual padrão de consumo nossa estrutura de renda consegue realmente sustentar?

 

🍰 E chegamos novamente ao velho bolo

Quem estudou Economia brasileira certamente já ouviu alguma versão da chamada "teoria do bolo".

Ela ficou associada ao debate econômico do período do chamado "milagre brasileiro": primeiro seria necessário acelerar o crescimento econômico e aumentar o tamanho do bolo para, posteriormente, melhorar sua distribuição.

O Brasil efetivamente cresceu muito naquele período. Mas também ocorreu forte concentração de renda. Estudos sobre a controvérsia mostram que a expansão do consumo de bens duráveis naquele momento esteve associada à concentração de renda e à expansão do crédito ao consumidor.

Décadas depois, talvez valha recuperar aquela velha metáfora.

O bolo brasileiro cresceu enormemente desde então.

  • Produzimos automóveis sofisticados.
  • Temos smartphones de última geração.
  • Temos bancos digitais. Pix. Shopping centers.
  • Aplicativos que entregam praticamente qualquer coisa em nossa porta.
  • Carros elétricos que podem ser atualizados por software.

Mas uma pergunta continua válida:

quanto desse bolo chega à base da pirâmide?

 

⚖️ Capitalismo ou socialismo? Talvez a pergunta esteja mal formulada

Aqui proponho deliberadamente uma pequena utopia econômica.

Não como modelo pronto. Muito menos como defesa partidária.

Imagine uma sociedade capaz de preservar algumas das maiores virtudes do capitalismo: iniciativa individual, empreendedorismo, inovação, propriedade privada, competição e recompensa pelo risco.

  • Quem cria algo extraordinário pode enriquecer.
  • Quem empreende assume riscos e pode obter retorno.
  • Quem estuda, trabalha, investe e inova pode avançar economicamente.

Não vejo problema nisso.

Agora acrescente a esse sistema uma preocupação historicamente associada ao pensamento socialista e ao Estado social:

ninguém deveria permanecer abaixo de um determinado piso de dignidade.

  • Alimentação.
  • Educação.
  • Saúde.
  • Saneamento.
  • Moradia minimamente adequada.
  • Segurança.
  • Mobilidade.
  • E condições reais para desenvolver suas capacidades.

Não estou falando em tornar todos economicamente iguais. Pessoas possuem talentos, preferências, esforços e escolhas diferentes.

Estou falando de algo diferente: permitir que as pessoas sejam diferentes sem que algumas precisem começar a corrida quilômetros atrás das outras.

 

🍰 Talvez não precisemos escolher entre crescer e distribuir

E aqui volto ao bolo.

Talvez tenhamos passado tempo demais discutindo duas alternativas:

  • crescer primeiro para distribuir depois
  • ou distribuir antes de crescer.

E se a pergunta estiver errada?

Uma economia moderna precisa gerar produtividade, investimento e inovação para continuar aumentando sua riqueza. Sem crescimento sustentável, simplesmente redistribuímos um bolo que pode permanecer pequeno.

Mas crescimento sem mecanismos que ampliem oportunidades também pode produzir uma economia extraordinariamente rica na média e frustrante para milhões de pessoas.

Os números brasileiros ajudam a entender o dilema: mesmo depois dos avanços recentes da renda, os 10% de maior rendimento ainda concentram parcela superior àquela recebida pelos 70% de menor renda.

Talvez o verdadeiro desafio seja outro:

como fazer o bolo crescer enquanto mais pessoas conseguem se sentar à mesa?

 

🚗 E o carro zero?

Voltamos finalmente ao estacionamento da concessionária.

Um automóvel não é uma necessidade fisiológica. Para muitas famílias, porém, tornou-se instrumento de trabalho, mobilidade, segurança e acesso a oportunidades.

Quando o carro novo médio chega a R 3,5 mil, não estamos diante apenas de um problema da indústria automobilística.

Estamos diante de uma fotografia da relação entre preços, salários e poder de compra.

E talvez ela explique por que financiamento de 60, 72 ou 84 meses parece tão atraente.

Alongamos a dívida porque não conseguimos alongar o salário na mesma proporção.

O crédito resolve a restrição do presente. Mas cobra parte do futuro.

Em Economia, aprendemos que não existe almoço grátis. Toda decisão tem um custo — mesmo que ele não apareça na primeira parcela.

 

📖 A parábola dos três andares

Imagine uma família morando numa casa de três andares.

  • No primeiro estavam a comida, a saúde, a moradia e a segurança.
  • No segundo, a tranquilidade financeira, alguma poupança e a possibilidade de enfrentar imprevistos.
  • No terceiro estavam o carro novo, o celular desejado, as viagens e outros confortos que tornam a vida mais agradável.

A família queria muito conhecer o terceiro andar. Mas construir os dois primeiros demoraria anos.

Um dia apareceu alguém oferecendo uma escada enorme. "Vocês podem subir agora e pagar a escada em 84 parcelas."

A família subiu. Gostou da vista. Tirou fotografias. Mostrou aos amigos. Parecia finalmente ter chegado ao topo.

Até que veio uma tempestade.

Foi então que descobriram que possuíam uma ótima escada. Mas ainda faltavam alguns tijolos na base da casa.

 

🔎 Afinal, o que significa ser rico?

Talvez essa seja a pergunta que ficou comigo depois de três semanas falando sobre automóveis.

Começamos escolhendo entre elétrico, híbrido e flex. Depois discutimos infraestrutura, indústria, Petrobras e empregos. Agora chegamos à renda.

E descobrimos que a discussão talvez nunca tenha sido apenas sobre carros.

  • Ter um carro de R$ 150 mil significa ser rico?
  • Ter o smartphone mais recente?
  • Viajar? Morar bem?

Ou riqueza também deveria significar possuir patrimônio, segurança econômica, liberdade para escolher e capacidade de enfrentar uma adversidade sem ver toda a estrutura familiar desmoronar?

Não tenho uma fórmula perfeita. Nem acredito que capitalismo ou socialismo, isoladamente e em suas formas puras, tenham produzido essa sociedade ideal.

Talvez por isso valha continuar imaginando.

Uma economia que produza como se crescimento importasse muito, porque importa. Que inove como se empreendedorismo e iniciativa individual fossem essenciais, porque são. Mas que também se preocupe com a base da pirâmide como se dela dependesse todo o restante.

Porque depende.

Talvez riqueza não seja conseguir comprar aquilo que aparece no topo da pirâmide. Riqueza é também construir uma base suficientemente sólida para que um imprevisto não derrube tudo aquilo que colocamos acima dela.

E talvez o objetivo do desenvolvimento econômico não seja colocar todo mundo no mesmo andar. Seja permitir que todos tenham uma escada, mas, principalmente, uma base sobre a qual possam apoiá-la.

 

 

 

 

 

 

📚 Referências e fontes:

  • Bright Consulting. (2026). Levantamento sobre preço de automóveis, renda média e esforço para aquisição no Brasil. Divulgado pelo Jornal do Carro/Estadão.
  • IBGE. (2026). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) 2025.
  • Falero, J. (2020). Os Supridores. São Paulo: Editora 34.
  • Decreto Presidencial nº 12.148/2026. Salário mínimo 2026.

✍️ Nota do Blog: Texto autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes. As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

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