👁️ A Economia da Cegueira: como as BETs estão sugando bilhões das famílias brasileiras
"O pior cego talvez não seja aquele que perdeu a visão, mas aquele que deixou de enxergar o que acontece diante dos próprios olhos."
✍️ Autor: Prof.
Luiz César de Oliveira – UTFPR Cornélio Procópio
📊 Economia,
desenvolvimento regional e sociedade
Ao ler uma resenha crítica e refletir sobre posts que
circulavam nas redes sociais a respeito de Ensaio sobre a Cegueira, de José
Saramago — e após uma conversa informal no carro sobre o livro com minha
esposa, a Profa. Dra. Vanderleia da Silva Oliveira, docente da UENP Cornélio
Procópio e pesquisadora na área de Literatura —, fiquei pensando que a maior
mensagem dessa obra talvez não seja sobre a perda da visão física. É sobre a
cegueira coletiva. Sobre a capacidade que uma sociedade desenvolve de
transformar o absurdo em algo aparentemente normal.
Talvez essa reflexão também nos ajude a entender um dos
fenômenos econômicos mais preocupantes do Brasil atual: a explosão das
apostas esportivas, as chamadas BETs.
Segundo estudo elaborado pelo Comsefaz e
pelo Cicef, com base em dados do Banco Central, das Estatísticas de
Pagamentos por Atividade Econômica (EPAE) e em análises próprias, as famílias
brasileiras perderam aproximadamente R$ 62,5 bilhões de reais para plataformas
de apostas apenas em 2025, enquanto o volume movimentado via PIX alcançou R$
350,9 bilhões.
Até aqui são apenas números. Mas a economia começa
justamente quando perguntamos:
👉 Quem perdeu
esse dinheiro?
📊 O tamanho do mercado
das apostas no Brasil
|
Indicador |
Valor (2025) |
|
💰 Volume movimentado via Pix
para BETs |
R$ 350,97 bilhões |
|
📉 Perdas líquidas das famílias |
R$ 62,5 bilhões |
|
📅 Média diária de movimentação |
aproximadamente R$ 961
milhões |
|
📈 Média diária de perdas |
cerca de R$ 171 milhões |
Fontes: Comsefaz/Cicef, Banco Central (EPAE).
Antes de responder, vale olhar para outra realidade
econômica do país.
Fonte: IBGE (PNAD Contínua 2024), FGV Social, Ipea,
Dieese. Elaboração: Visão Social e Econômica do Brasil - 2026. Cópia da
Internet Instagram.
A pirâmide de renda mostra que cerca de 65% dos
brasileiros vivem com até dois salários mínimos. Isso significa que a maior
parte da população possui pouca margem para absorver perdas financeiras.
- Para
quem vive com renda elevada, perder R$ 100 pode representar um inconveniente.
- Para
uma família que vive com um ou dois salários mínimos, esse mesmo valor
pode significar o gás de cozinha, parte da alimentação do mês, um
remédio ou o material escolar dos filhos.
É justamente aí que a discussão deixa de ser apenas sobre
entretenimento e passa a ser uma questão econômica e social.
O problema não está apenas em apostar. O problema é
quando milhões de pessoas acreditam que a aposta pode substituir o
trabalho, o estudo, o empreendedorismo e a construção lenta do patrimônio.
🧠 O que a economia
comportamental diz
A economia comportamental, estudada por autores como Daniel
Kahneman e Richard Thaler, mostra que o cérebro humano
tende a supervalorizar recompensas rápidas e a subestimar
probabilidades muito pequenas.
Não por acaso, plataformas de apostas utilizam mecanismos
que estimulam exatamente esse comportamento. Não é coincidência. É
modelo de negócios.
Kahneman, em seu livro Rápido e Devagar,
descreve como o chamado Sistema 1 (intuitivo, emocional)
frequentemente sobrepõe o Sistema 2 (racional, analítico) em
situações que envolvem risco e recompensa imediata . Thaler, por sua vez,
mostrou como arquiteturas de escolha podem empurrar as pessoas
para decisões prejudiciais — ou benéficas, se bem desenhadas .
Durante a Copa do Mundo de 2026, vimos propagandas de
apostas em transmissões esportivas, patrocínios de clubes, influenciadores
digitais e campanhas direcionadas ao grande público. Em poucos segundos,
bastava um celular e uma transferência via Pix para transformar um impulso em
uma aposta.
📖 O caso de Lucas Lima:
quando a tragédia tem nome
Enquanto isso, histórias como a do fazendeiro gaúcho Lucas
Lima deixaram de parecer casos isolados para se tornarem símbolos
de um problema muito maior. O caso foi originalmente publicado pelo
jornal Folha do Estado (RS) no dia 23 de julho de 2026 .
Lucas passou anos construindo o que tinha: uma empresa de
leilão de gado, independência financeira e uma vida erguida com as próprias
mãos. Bastou cerca de um ano para tudo isso ir embora.
Começou pequeno — uma aposta de R$ 50, quase nada. Mas cada
perda vinha acompanhada da vontade de recuperar o que tinha ido embora. Foi
assim que ele foi apostando cada vez mais, até vender o gado, pegar empréstimos
e ver a própria empresa desmoronar.
O valor de R$ 4 milhões impressiona. Mas o
que dói de verdade é imaginar alguém vendo, dia após dia, o próprio esforço de
uma vida inteira escorrer pelos dedos.
"Cuidado com o tigrinho, ele nunca perde, você nunca
ganha, ele vicia, mata sorrindo."
— Lucas Lima
Não foi só azar. De influenciador em influenciador, de
propaganda em propaganda durante o jogo de futebol, alguém está lucrando com a
esperança de quem só quer respirar aliviado no fim do mês.
É isso que dói: esses jogos não vendem apenas a chance de
ganhar. Vendem a sensação de que existe um atalho para a dor de nunca
ter o suficiente. E é exatamente essa dor que faz tanta gente
vulnerável apostar o pouco que tem.
|
País |
Regulação |
Políticas de
prevenção |
|
Portugal |
Cassinos legalizados
há décadas |
Programas permanentes
de prevenção, autoexclusão e tratamento da dependência |
|
Reino Unido |
Referência mundial em apostas
esportivas |
Endurecimento recente das regras
de publicidade diante do crescimento de casos problemáticos entre jovens |
|
Brasil |
Regulamentação recente
(2023/2024) |
Em fase inicial;
debates sobre limites e proteção ao consumidor |
Portugal, por exemplo, possui cassinos legalizados e
regulamentação para jogos de azar há muitos anos. Ainda assim, mantém programas
permanentes de prevenção, mecanismos de autoexclusão de jogadores e políticas
públicas voltadas ao tratamento da dependência. O Reino Unido, referência
mundial em apostas esportivas, também endureceu recentemente regras de
publicidade diante do crescimento dos casos de jogo problemático entre
jovens.
Ou seja, a regulamentação não elimina os desafios. Ela
apenas torna ainda mais importante o debate público.
🏛️ Não é uma questão
partidária
Também não se trata de discutir siglas ou ideologias. A
regulamentação das apostas foi aprovada pelo Congresso Nacional sob
justificativas como arrecadação tributária, controle de mercado e combate à
ilegalidade. Entretanto, os custos econômicos e sociais dessa liberação
irrestrita passaram a despertar crescente preocupação.
Não se trata de proibir escolhas individuais, mas de
reconhecer que não existe "livre arbítrio" pleno quando o cidadão
comum é confrontado por uma indústria bilionária munida de algoritmos
predatórios, estímulos dopaminérgicos contínuos e publicidade agressiva 24
horas por dia. Trata-se de uma assimetria de poder em que o indivíduo é
induzido ao erro e ao endividamento sistemático.
Influencers ficando milionários às custas de 65% a
70% da população brasileira com propagandas de BETs... até onde e até quando?
Além disso, aceitar essa expansão sob o pretexto de
"aumentar a arrecadação de impostos" para o Estado é uma falácia
econômica perversa. O que o setor público arrecada em tributos das bancas de
apostas tende a ser significativamente inferiores aos custos indiretos gerados na saúde pública, na
destruição da renda das famílias e na redução da atividade econômica. Arrecadar
sobre o vício e a vulnerabilidade da população não é política fiscal: é
conivência estatal.
O debate público não pode continuar refém da passividade. É
hora de superarmos a cegueira partidária e começarmos a cobrar atitudes
concretas dos nossos "políticos de estimação" — sejam eles deputados,
senadores ou governantes em quem votamos.
Quais limites esses parlamentares estão propondo para
restringir a publicidade de apostas na TV e nas redes sociais? Que medidas de
proteção às famílias e de proibição do uso de cartões de crédito e benefícios
sociais em BETs eles estão apoiando? Cobrar coerência e responsabilidade social
de quem nos representa não é uma opção ideológica: é um dever cidadão antes que
a renda da nossa população seja inteiramente sugada. Essa é uma discussão que
pertence à sociedade, e não a um partido.
📊 O que R$ 62,5 bilhões
poderiam financiar?
|
Área |
Exemplo de impacto
potencial |
|
🏫 Educação |
Construção de milhares
de escolas ou bolsas de estudo |
|
🏥 Saúde |
Ampliação da rede hospitalar e
atendimento público |
|
🏗️ Infraestrutura |
Obras de saneamento,
mobilidade urbana e habitação popular |
|
💼 Emprego |
Geração de empregos diretos e
indiretos em setores produtivos |
|
🧪 Ciência |
Investimento em
pesquisa, inovação e tecnologia |
Valores estimados com base no total de perdas líquidas de
R$ 62,5 bilhões (Comsefaz/Cicef, 2025).
🔬 O que a ciência diz
sobre o vício em jogos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o transtorno
do jogo como um problema de saúde mental, incluído na Classificação
Internacional de Doenças (CID-11) . Estudos mostram que o vício em jogos de
azar ativa os mesmos circuitos cerebrais associados ao uso de substâncias
psicoativas, liberando dopamina e criando um ciclo de dependência semelhante ao
de drogas .
O psiquiatra Carl Hart, professor da
Universidade de Columbia, argumenta que o vício não é uma falha moral, mas uma
resposta biológica e social a ambientes de estresse e escassez . No Brasil, a
Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) tem alertado para o crescimento
alarmante de casos de dependência em jogos online, especialmente entre jovens e
adultos de baixa renda .
🆘 Onde buscar ajuda
Se você se reconheceu em algum ponto deste texto, isso não
te torna fraco.
Vício em jogo é reconhecido como transtorno de saúde mental,
e existe apoio gratuito e confidencial:
- CVV
(Centro de Valorização da Vida): 188, ligação gratuita, 24h por
dia, todos os dias. Também atende por chat e e-mail em cvv.org.br.
- Jogadores
Anônimos (JA): grupos de apoio gratuitos, presenciais e online,
específicos para quem lida com vício em apostas. Endereços em jabrasil.org.br.
- CAPS
(Centro de Atenção Psicossocial) da sua cidade: atendimento
psicológico e psiquiátrico gratuito pelo SUS.
Pedir ajuda não é fraqueza. É o primeiro passo para retomar
o controle.
💸 O dinheiro perdido não
desaparece
Existe um aspecto econômico que raramente aparece nas
propagandas das plataformas de apostas.
O dinheiro perdido nas BETs não desaparece. Ele apenas muda
de endereço. Sai da padaria, do supermercado, da farmácia, da loja de roupas,
da oficina mecânica, do pequeno produtor rural e dos prestadores de serviços da
cidade. Deixa de circular na economia local para concentrar-se em grandes
plataformas digitais.
Em economia, chamamos isso de efeito multiplicador da
renda. Quando uma família compra no comércio local, aquele mesmo dinheiro
paga salários, gera novos impostos, movimenta fornecedores e cria novas
oportunidades de investimento. Mas, quando bilhões deixam de circular na
economia real para financiar apostas, esse ciclo virtuoso é interrompido.
Os R$ 62,5 bilhões perdidos pelas famílias
brasileiras em 2025 representam não apenas perdas individuais. Representam
menos consumo, menos investimento, menos empregos e menor dinamismo econômico
para milhares de municípios.
É justamente nesse ponto que a economia volta a dialogar com a velha sabedoria.
Porque dinheiro não é apenas riqueza individual. É também um
instrumento de desenvolvimento coletivo.
📖 A parábola das duas sementes
Conta-se que um agricultor recebeu duas sementes.
A primeira prometia uma árvore carregada de frutos em apenas
sete dias. A segunda trazia apenas uma recomendação: "Regue-me
todos os dias, durante muitos anos."
Encantado pela promessa do resultado imediato, o agricultor
dedicou toda a sua atenção à primeira semente. Esperou uma semana. Depois
outra. Nada nasceu. Quando resolveu cuidar da segunda, ela já havia secado pela
falta de água.
Na economia acontece algo semelhante.
O patrimônio verdadeiro cresce devagar. Exige disciplina,
paciência, conhecimento e trabalho.
As promessas de enriquecimento rápido quase sempre florescem
primeiro na propaganda. Os frutos, infelizmente, costumam ser colhidos por quem
vende o sonho — e não por quem compra o bilhete.
🌱 Reflexão Final
Como pesquisador focado em Desenvolvimento Econômico e Social, dedico minha trajetória a compreender como regiões se transformam e geram bem-estar de longo prazo para as suas populações. E a ciência regional é categórica: não existe desenvolvimento real sem a fortalecimento do tecido social, da inovação e da capacidade produtiva local. A prosperidade sustentável de um território não se constrói em tabuleiros virtuais nem em ilusões de enriquecimento sem esforço; ela nasce da combinação paciente entre trabalho, educação de qualidade, empreendedorismo e investimento na economia real.
Ganhos rápidos e aleatórios podem até beneficiar uma minoria
sortuda, mas cobram um preço devastador do desenvolvimento coletivo. Quando R$
62,5 bilhões deixam de circular no comércio dos nossos municípios, na formação
dos nossos jovens e no investimento local para migrarem para algoritmos de
apostas, testemunhamos uma erosão silenciosa do capital social e do poder de
compra das famílias.
Como lembraria Saramago — e como discutia no carro com a
Profa. Vanderleia —, a pior cegueira não é a ausência de luz nos olhos, mas a
anestesia da consciência: a incapacidade de perceber aquilo que, por
conveniência e repetição, se torna gradualmente 'normal'.
Não podemos aceitar o empobrecimento da nossa população e a sangria do desenvolvimento regional como parte da paisagem. É hora de abrirmos os olhos, exercermos nossa cidadania e resgatarmos o valor do conhecimento e do trabalho produtivo antes que essa cegueira coletiva comprometa o futuro das nossas cidades.
📚 Referências:
- Banco
Central do Brasil. (2025). Estatísticas de Pagamentos por
Atividade Econômica (EPAE).
- Comsefaz
& Cicef. (2025). Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.
- Folha
do Estado (RS). (2026, 23 de julho). Relato de Lucas Lima sobre perdas em
apostas online.
- Hart, C. (2013). High
Price: A Neuroscientist's Journey of Self-Discovery That Challenges
Everything You Know About Drugs and Society. New York:
HarperCollins.
- IBGE.
(2024). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD
Contínua).
- Kahneman,
D. (2011). Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Rio de
Janeiro: Objetiva.
- Organização
Mundial da Saúde (OMS). (2022). Classificação Internacional de
Doenças (CID-11).
- Saramago,
J. (1995). Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa: Caminho.
- Thaler, R. H., & Sunstein,
C. R. (2008). Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and
Happiness. New Haven: Yale University Press.
✍️ Nota do Blog: Texto
autoral. IA utilizada apenas para organização, revisão e verificação de fontes.
As reflexões, análises e propostas são de inteira responsabilidade do autor.

Bom dia Luiz César,
ResponderExcluirÓtimo texto. Atual, contextualizado.
Meu doutorado foi estudar a dificuldade de recuperação de dependentes químicos. Os mecanismos cerebrais acionadas pelas apostas tipo bets são os mesmos que quem é viciado em cocaína, nos casos mais extremos, o crack, pela grande rapidez e intensidade dos efeitos.
A cegueira cognitiva realmente é planejada é não fica restrita às BETs, mas nelas estão os resultados mais agudos.
Acredito que o governo na ânsia de arrecadar tributos abriu as portas para diversas empresas incluírem a propaganda em seus canais. Enquanto não estava regulamentada existia uma inibição de se associar a algo que ainda não era legal.
Abraço
Gostei do texto e do alerta que ele apresenta 👏👏
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